COMPRAR CIGARROS

Eles estavam bem no meio de uma briga séria quando Antonio declarou, como se fosse a única coisa a fazer naquela hora:

“Vou comprar cigarros!”

Pegou o casaco e saiu, sem dar tempo de qualquer palavra à Elisandra.

Meu Jesus, pensou ela – imediata. Para que pegar o casaco num dia tão quente? E comprar cigarros numa hora daquelas, justamente no calor mais forte da discussão? E então ela lembrou – alarmada: comprar cigarros é a desculpa que usam todos os maridos para sumir de casa! Dizem que vão ali na esquina, comprar um maço de cigarros, e depois nunca mais aparecem! Antonio não vai voltar! – desesperada.

E então começou a chorar alto.

O que vai ser de mim, tão nova e já abandonada desse jeito? O que foi que eu fiz para merecer tamanha desgraça? Uma briguinha só, uma discussãozinha, e agora Antonio desaparece? Some, simplesmente? Mas o que é isso? Será que não havia jeito melhor de resolver? – em pânico. Pegar o casaco e sumir para sempre – é essa a única resposta possível de um homem para uma simples discussão de casal? E ela agora, largada como uma roupa velha, o que iria dizer para as pessoas? Como poderia andar na rua, aguentar os comentários? – chorando. De que forma eu vou suportar a solidão de todos estes anos que ainda tenho pela frente? Este homem não sabe o que fez comigo - desesperada. Nunca mais voltará, nunca mais.

Antonio – ai, Antonio! -, pensou Elisandra, fora comprar cigarros e destruíra a sua vida.

*****

Quando o marido voltou com um maço de cigarros, quinze minutos depois, Elisandra atirou-lhe um cinzeiro (e errou), ainda em lágrimas. Era o mínimo que poderia fazer, pensou ela, depois de todo aquele tempo de abandono.


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