É SÓ UMA ROSA?

Graziela recém havia descido do ônibus e iniciava sem vontade a sua caminhada em direção ao trabalho, quando o desconhecido se aproximou. Ainda que fosse manhã clara e houvesse certo movimento na rua, ela apertou com mais cuidado a bolsinha em que carregava os documentos e sempre uns trocados. Mas relaxou quando percebeu que o pacote que o homem carregava não parecia conter maiores ameaças; eram apenas rosas brancas. E quando ele escolheu uma e ofereceu-a a Graziela, ela não conseguiu deixar de sorrir, meio desconfiada, enquanto parava o passo sem perceber.

“Para mim? Por quê?”

‘Por nada. Ou melhor, por nenhuma razão especial.” – respondeu o homem, e em seus olhos tranqüilos Graziela não adivinhava nenhuma loucura mansa, ameaça escondida. – “As pessoas não precisam de motivo para ganhar flores.”

´Lá isso é verdade...” – disse a moça, pegando a rosa que o homem ainda lhe estendia. – “Mas não é uma promoção de nada, uma propaganda, uma pegadinha?” – e olhou para os lados, procurando as câmaras ocultas da televisão.

“Nada. É só uma rosa.” - depois agregou. – “É que hoje acordei com vontade de dar uma alegriazinha para as pessoas e pensei: não tem quem não goste de ganhar flor. Aí, comprei estas rosas e estou distribuindo, escolhendo quem mais parece precisar, quem tenha o olhar mais triste.” (eu tenho o olhar triste?, pensou Graziela) – e completou - ´Tão fácil colocar um sorriso no rosto das outras pessoas, quando se quer fazer isso...”

“Obrigado, então.” – disse a moça. E sorriu.

Quando o homem se afastou, provavelmente procurando outra pessoa para entregar suas flores, Graziela começou a retomar o caminho para o trabalho, os passos meio envergonhados de quem carrega uma rosa branca no meio da rua.

Mas hoje o dia vai ser bom, pensou ela.


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