PRECONCEITO, ONDE?

“Bobagem, esta coisa de racismo e preconceito. Isso não existe aqui.” – me disse ele. – “A Chica, que trabalha lá em casa há anos, por exemplo, é quase como se fosse da família... Todo mundo adora ela. E é negra! Preta como carvão!...”

“A Chica, é? E como é o nome dela?” – perguntei.

“É Chica, ué!” – me respondeu.

“Não, não o apelido. O nome mesmo!”

Ele pensou um pouco:

“Francisca...eu acho. Deve ser, se o apelido é Francisca!”

“Deve ser?” – perguntei eu. – “Há quantos anos a Chica trabalha na tua casa?”

“Ah, um tempão!...” – ele me disse.

“E não tens certeza do nome dela?”

´É que eu não me ligo nestas coisas... A mulher é que trata mais com ela.” – justificou.

“Mas ela é como se fosse da família...” – disse eu, para mim mesmo. – “E onde a Chica mora?”

“Não sei bem, eu sei que é longe...” – depois justificou - “É que não sou muito de me meter nestas bocadas.”

“E os filhos da Chica - da Francisca - por acaso já foram na tua casa?”

“Não sei se ela tem filhos, rapaz! E por que eles iriam na minha casa, se ela tem a casa dela?”

“Ué, mas se são da família!...” - provoquei

“Che, mas este teu papo parece provocação! Família é modo de dizer! Família mesmo é só a minha – eu, minha mulher, meus dois filhos e ponto! O resto é o resto. E já é suficiente, tão difícil de manter!...”

E para si mesmo, como se eu não estivesse ali:

“Porque a veadagem tá tomando conta... se a gente não cuidar...”


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