PLÁSTICO

O problema começou comigo, honey. Eu achei que devia dar uma nova retocada, e então puxei aqui em cima, nos cílios, e um pouco mais embaixo, na papada – ui, eu acho este nome tããão horrível! -, porque ela já andava com umas ruguinhas que uma mulher do meu porte e elegância não pode ter. E aí, já que eu estava mesmo na mesa, decidi colocar uns mililitros a mais nos seios, porque o meu marido adora, e mais um pouquinho de botox nos lábios, porque minhas amigas detestam. O resultado foi ótimo, ainda que algumas invejosas digam que ficou meio exagerado. Acontece que fiquei igualzinha à minha filha mais velha. Até aí, sem problema.

É claro que minha filha mais velha não gostou muito desta semelhança e, como compensação – sei lá! - exigiu que a gente desse de presente para ela uma nova cirurgia plástica. Eu, particularmente, fui contra – ela já fez uma no ano passado e acho que a gente precisa dar uma educação mais rígida para os filhos. Mas meu marido concordou e deixamos ela entrar na faca. Para dizer a verdade, não acho que ficou muito bem, estou parecendo mais nova que ela. Mas ela gostou, apesar de alguma dificuldade para fechar a boca, e a felicidade dos filhos é o que importa. Até aí, sem problema.

Mas aí minha filha mais nova ficou com ciúme. Estas briguinhas de irmãs, sabe? E aí, claro, tivemos que deixar a menina também fazer sua cirurgia. Assinamos a autorização – ela tem treze anos, precisa – e lá foi ela, bem faceira, dar uns retoques no nariz, diminuir as orelhinhas, umas coisinhas de nada, só para ela não se sentir inferior à irmã. Ficou bom, eu gostei. Quer dizer, até aí, sem problema.

E então o meu marido achou que não podia ficar de fora. A gente deu o maior apoio, porque somos uma família super unida, moderna e descolada, sabe? Ele tirou umas rugas, puxou um pouco os olhos e até acho que ficou meio japonês demais para o meu gosto. Também resolveu fazer um implante de cabelos, só não gostei quando ele saiu da cirurgia e resolveu pintar a nova cabeleira de acaju. Mas mesmo assim, até aí não tem problema.

O problema, honey, é que a maioria dos nossos amigos não está reconhecendo a gente.


Outros Contos


RODAR, RODAR

AMANHÃ TALVEZ

AO MAR

A MOÇA DO 20º ANDAR

O BILHETE

A HISTÓRIA

O PERSONAGEM QUE ME ESCREVE

PARA QUE SERVEM OS LIVROS?

JOGANDO BOLA NO CÉU

MÃOS DADAS

CENA PEQUENA

NA FOTOGRAFIA

TOM MENOR

O CAVALEIRO E SEU CAVALO

MAX, QUE TRATA BEM AS PALAVRAS

O HAITI NÃO É AQUI

AUTO DE INFRAÇÃO

A MÁQUINA

O CASAL NO RESTAURANTE

A ESCURIDÃO

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais