ROUBADA

Foi o Cibalena que me botou nesta roubada. Foi ele que me disse, na boa, compadre, pode ir lá e meter a casa porque a velha mora sozinha e a vizinhança toda trabalha. Vai que é moleza, ele disse. Aí eu fui mesmo, porque, meu, presente a gente nunca recusa. E aí, seguinte, nunca foi tão fácil entrar numa casa. Foi dar uma torcida na fechadura, um peteleco de nada, e a porta tava aberta. Entrei e o maior silêncio, eu só cuidando se a velha não aparecia, mas nada. Examinei o lance, dei uma escutada pra ver se tava limpo e aí comecei a recolher os bagulhos. Cara, a casa cheia de bagulho bom, a velha cheia da grana, como o Cibalena mesmo tinha me dado o toque. Peguei a sacola que eu tinha levado junto, porque sempre é bom andar preparado, e fui metendo as paradas lá dentro: relógio, talher, colar, anel, roupa, a grana que eu encontrei numa gaveta, cd player, dvd – a velha ligadona nestes baratos, meu. Até um quadrinho que tava pendurado na parede eu toquei dentro da sacola, vai que é de algum cara famoso? E eu lá, na festa da moleza, quando de repente escuto um barulho cheio de medo. Me virei e até tomei um cagaço, mas segurei bem a onda: atrás de mim, tava a velha, me apontando um enorme trabuco, um tresoitão de responsa! Só que me liguei logo que ela tava mais assustada que eu, porque tremia igual gelatina quando leva um tapa, sabe como é? Olhei pra ela, um pouquinho mais calmo, e aí me dei conta, cara: ela era igual a minha avó! A lata era a mesma, o mesmo jeito, o cabelo branco e as ruguinhas no canto do olho, igual, igual. Mas sei lá, de repente nem é tanto, velho é tudo a mesma coisa. Eu respirei fundo e falei pra ela se acalmar, que a gente resolvia tudo numa boa, mas a coroa só me apontava aquele trabuco como se tivesse mesmo a fim de me matar. Dei um passo pra frente e só escutei o estouro, o tiro, a bala passou rente da minha cabeça, mano: se a mulher não tremesse tanto eu não estava aqui pra contar a história. Olhei pra ela, igualzinha à minha vó, e ela tremia ainda mais. Aí eu saí de mim, sei lá o que é que me deu, mas a verdade é que naquela hora era ela ou eu: dei um pulo e meti um tabefe na coroa, que caiu e no tombo largou o cano. Peguei o revólver e, cara, a sorte da velha é que eu vi a minha avó caída ali na frente, senão eu tinha apagado ela na hora. Mas não, tive pena: só dei um coronhaço bem na boca da coroa, senti os dentes fraquinhos meio que se quebrando, acho que de repente até era dentadura, e depois, pra garantir, meti mais uma coronhada na nuca da velha. Ela deu um grito, compadre, que foi quase mais alto que o tiro da bazuca, sei lá de onde tirou tanto pulmão, e depois acho que desmaiou. Não sei bem se foi assim, não fiquei pra ver o tamanho da bronca: peguei a bagulhada que já tinha metido dentro da sacola, passei por cima da coroa, que tava meio que revirando o olho, e me mandei. Sei lá o que é que aconteceu com a velha. Mas a verdade é que, tenho que confessar, cada vez que me lembro da coroa, também fico me lembrando da minha vó. Pensando neste lance do sangue pela boca, a tremedeira, estas paradas todas. E até me dá um aperto, uma vontade de chorar. Sei lá. Culpa do Cibalena, que me botou nesta roubada.

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