A CULPA É DELA

Eu é que sou tarado, doutor? Mas o que é isso? Eu sou um cara normal, um cidadão comum! O senhor não viu esta pesquisa que diz que a maioria das pessoas acha que a mulher de roupa curta, batom, estas porcarias todas, tá pedindo pra ser atacada? Ou, no mínimo, tá colaborando com isso? Pois é, doutor, depois desta pesquisa o que é que eu vou dizer? A gente somos maioria!... E aí, o senhor acompanhe o meu raciocínio, faz favor. Eu tava ali, um cara normal, tranqüilo, andando no meu caminho sem mexer com ninguém, quando a moça apareceu na mesma calçada, vindo na minha direção. De longe eu vi ela e manjei a bisca. Não que ela andasse decotada, estas coisas, até que nem: na verdade, ela tava vestindo umas calças de brim meio largas, umas sandálias e uma blusa destas mais folgadas, de manga comprida. Nada muito provocativo, se bem que estas sandalinhas que deixam muito do pé à mostra, aqueles dedinhos aparecendo - ai, doutor, o senhor vai concordar comigo que aquilo é uma perdição para qualquer homem de bem, não é? Mas os olhos, doutor! Os olhos! Eu no meu caminho, sem pensar em nada demais, e a mulher olha direto para mim. Direto, nos meus olhos! A coisa mais perigosa no corpo de uma mulher é o olho! E ela com uns olhos cheios de safadeza, que pareciam dizer "me pega agora", não vou usar outra palavra porque o senhor é autoridade. Mas aquela mulher com o olhão arregalado, olhando direto para mim, tava pedindo... Era como se estivesse pelada, o senhor me entende? Um convite! Aí, nem sei bem o que me deu, taquei a mão na bunda dela. Ela gritou, mas foi só pra disfarçar, porque a vagabunda bem que gostou – se tava pedindo, não é? Aí eu taquei a mão de novo, com mais vontade, para ela ver que ali tinha macho e a gente tava ali pro que desse e viesse. Ah, doutor, com ela me olhando daquele jeito convidativo, eu acho que tava até no meu direito! Daí ela saiu correndo, só para se fazer de difícil, o olhar fingindo de assustada – mas por trás daquele fingimento dava pra ver que ela ainda tava querendo. Querendo, sim! - senão não tinha olhado para mim daquele jeito! Foi por isso, doutor, que eu saí correndo atrás dela – prá levar um lero, uma conversinha, de repente um tchaca-tchaca. E aí ela começou a gritar, fez aquele escarcéu e chegaram uns caras e a polícia, tudo ao mesmo tempo, e sei lá porquê me encheram de porrada, a vagaba ao lado fingindo que chorava, e depois de me afofarem a pau me trouxeram aqui para a delegacia para falar com o senhor, seu delegado. E agora o senhor me diz que eu vou ser preso? Eu, um cidadão comum, uma pessoa de bem? Mas se ela provocou, doutor, o que é que eu podia fazer? E agora eu fico preso e ela fica solta, o senhor não acha isso uma injustiça? Ela é que deveria estar presa, aquela piranha, por olhar daquele jeito para um homem! Pouca vergonha, doutor, pouca vergonha!...

Outros Contos


PRIMEIRO DIA DE AULA

A PERGUNTA A NÃO SER FEITA

MEIA LUZ, MEIA VERDADE

OS DIAS LONGOS

O LEITOR MANDA

O AUMENTO (versão 2)

AS FALAS DA MÃE

AS FELICIDADES PEQUENAS

O HOMEM NO BAR

DIA DOS NAMORADOS

O PASSO EM DIREÇÃO

OFERENDA

O SENTIDO DA VIDA

TIO GUNTHER, QUE NUNCA CHEGA

AINDA CARNAVAL

PAPAIS NOEIS

QUINZE ANOS

PRECONCEITO, ONDE?

OS OLHOS AZUIS, AZUIS

JOGANDO BOLA NO CÉU

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais