O PASSO EM DIREÇÃO

Foi no final do ano passado que eles se conheceram. Sabrina havia encarado a viagem sozinha para a Europa, um mês e pouco rodando pelos países em companhia da mochila e de quem mais aparecesse, quando encontrou Ernesto, peruano que também andava perambulando por aqueles lados, saltitando entre hostels, albergues, quartos compartidos em pousadas baratas e os sofás das casas dos novos amigos, feitos nas estradas.

Escritores menores diriam que foi paixão à primeira vista – mas foi mesmo, dizer o quê? Eles se encontraram em Madri, num pequeno restaurante perto do Prado em que ele a havia ajudado a melhor entender-se com o garçom, e desde então não haviam mais se desgrudado. Resolveram seguir viagem juntos, privilégio de quem não tem agendas prontas.

E então foram as duas semanas mais intensas da vida de Sabrina.

Quando se despediram, aos prantos, prometeram que se veriam tão logo pudessem. Depois, horas em frente ao computador, os dois ainda em lágrimas e sorrisos, palavras cheias de promessas verdadeiras, tecnologia mitigando saudades.

Até que Ernesto anunciou que estava vindo. Viajo daqui a dois meses e fico quinze dias em tua casa no Brasil, disse ele, o sorriso largo para uma Sabrina emocionada. E ela, então, a contar os dias.

Mas quando os dias da chegada ficaram próximos, o frio na barriga de Sabrina começou a se transformar em nervosismo de verdade. Dizem que amores de verão não duram; o que dizer então de amores de viagens? Paixão de férias, com cenários e cores diferentes, sem compromisso ou destino, era uma coisa; mas o que seria deles nestes quinze dias próximos de rotina, o cotidianinho batendo à porta do quarto na casa em que Sabrina ainda mora com os pais? Que passo era este que estava sendo dado? E em que direção?

E devia ser dado?

*****

Todas estas perguntas andam com Sabrina agora, enquanto ela aguarda por Ernesto no aeroporto. Colocou uma roupa bem bonita e comprou flores para recebê-lo, mas o fato é que não sabe como irá reagir à hora em que ele aparecer. Tudo ao mesmo tempo: saudade, angústia, incerteza, suor frio. Porque é isso: nos últimos dias, ela só conseguia pensar que passo estava sendo dado e se este passo valeria a pena.

Mas quando o sorriso de Ernesto cruza a porta do desembarque internacional, toda a incerteza desaparece.


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