O MEDO INVISÍVEL

Então ela olha para o homem que está sentado ao seu lado no banco do ônibus e pergunta qual a parada mais próxima ao Posto de Saúde.

Ele, um senhor meio grisalho, está lendo um livrinho religioso e mal levanta os olhos da leitura para responder, a voz solícita.

“Fica perto daqui. É a terceira parada, a contar da próxima.” - e depois de um certo tempo – “Eu desço no mesmo ponto, posso lhe mostrar o caminho do Posto de Saúde.”

“Obrigado.” – ela diz; e mais não falam.

Um segundo depois da resposta do homem, no entanto, a mulher começa a refletir. Meu Deus, pensa ela, o que poderia estar escondido na oferta assim repentina deste desconhecido? Não pedira a ele que mostrasse o caminho, apenas que informasse a parada de ônibus mais próxima. O que ele poderia estar tramando? Ou querendo? Desejando? Descemos os dois, ele me acompanha e sabe-se lá o que pode fazer numa hora em que não tiver ninguém por perto? E se me arrasta para um lugar deserto? E se dentro do bolso do casaco existe um revólver? Uma faca? E esta carinha de compenetrado, de senhor respeitável? Fingimento, quem sabe? Vai ver está só me estudando com o canto do olho!.. Por que é que nem me encarou quando me respondeu? E este livrinho de orações? Bem que pode ser só um disfarce. Ou até, quem sabe, uma espécie de tara, algo assim! Vai saber, pensa a mulher – afinal, existe tanta gente má com cara de gente boa neste mundo. Não, diz ela para si mesma, este cara que vá enrolar outra mais tonta, porque a mim ele não engana.

Poucos minutos depois, o homem levanta do banco e sorri para ela:

“Nossa parada é a próxima.”

Ela olha para o outro lado, distanciando-se dos olhos do desconhecido, enquanto responde:

“Obrigado, mas não vou mais descer.”


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