O BEIJO

O casal se beija, sentado no banco da praça. Em meio ao sol tranqüilo da manhã, ao lado do burburinho incessante da terça-feira, dos barulhos que há três horas acordaram a cidade grande, beijam-se os dois, sentados no banco da praça. Um menino e uma menina, não mais; ele terá vinte anos, ela um pouco menos – mas pouco se percebem seus rostos quase adolescentes, escondidos que estão no próprio gosto do beijo. Um ônibus buzina na rua em frente e depois freia para recolher passageiros, com o ruído de suas molas gastas, mas nem o silvo e nem o rangido são suficientes para movê-los – eles apenas se beijam sentados no banco da praça, com a ânsia boa dos que ainda descobrem. Um cachorro late bem próximo, latido sorridente de quem talvez queira brincar com qualquer um; qualquer um, menos ela e ele, que não fazem nada além de beijar-se no banco da praça. Um senhor com jeito provecto, terno cinza e guarda-chuva neste dia tão ensolarado, estaca rapidamente – meio sem perceber – quando enxerga aquele casal tão desafiador, e parece ensaiar um breve gesto de censura a aquele ultraje ao seu pudor, mas desiste quando se dá conta de que seria tão inútil quanto desnecessário; o casal não lhe presta a menor atenção, ocupado que está em beijar-se com carinho no banco da praça. Uma borboletinha amarela pousa no canto esquerdo do banco em que estão os namorados, mas nenhum dos dois a vê – o beijo. Depois, cinco ou seis moleques carregando uma bola de futebol interrompem a algazarra infantil de seus passos corridos para assoviar e dar gargalhadas ao redor do casal, a alegria de quem sabe que daqui a um tempo começará a entender este mundo desconhecido, mas param e seguem em seu caminho até o campinho, quando percebem que seu alarido nem existe para o casal – os namorados beijam-se no banco da praça, sem escutar mais nada. Uma senhorinha carregada de sacolas de mercado passa e sorri, recheada quem sabe de quantas lembranças boas – mas nem o encanto deste sorriso chega ao casal, que está preso e feliz no encanto de seu próprio beijo.

As pessoas, as coisas, as cores, os barulhos, os fogos, os ventos, os tremores todos da manhã nesta cidade – tudo ao redor deles.

Mas eles apenas se beijam no banco da praça, como se nada mais houvesse.

Porque é o mais importante.


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