A GENTE DANÇA

O homem pára em frente à loja de discos quando escuta a música. Fica em silêncio uns instantes e então fecha os olhos, talvez para melhor ouvi-la. É um homem mais para o sério, circunspecto, algo cinzento, daqueles que ninguém imaginaria parar-se em frente à uma loja para escutar qualquer música, mas não – lá está ele, e quem observá-lo de perto encontrará em seus olhos fechados certa emoção ainda indescoberta.

E mais ainda quando o homem, ainda de olhos fechados, começa a dançar ao som daquela música. Tem os dois pés esquerdos, dança mal – mas qual o problema em dançar mal quando se conduz no ar uma parceria imaginária, que flutua e apenas lhe completa os passos? O homem baila, esquecido do mundo e dos que o rodeiam, e se é verdade que um ou dois transeuntes ensaiam certo riso ao perceber aquela dança tão bonita quanto desajeitada, o fato é que a maioria estaca, momento fácil em suas vidas, para bem apreciá-la. Afinal, um desconhecido dançando na rua é leveza inesperada e boa atravessando o dia.

E ninguém se surpreende quando uma senhora larga no chão o pequeno pacote que carregava e enlaça o parceiro desconhecido, sem que ele sequer abra os olhos para conhecê-la, porque não é necessário – o que importa é a dança, a música, a felicidade breve de tê-las. Bailam, os dois, e tudo o mais está em suspenso.

Daí a pouco, há outro casal dançando. A música já é outra, mas parece que isso também pouco importa. Outro casal, logo depois, entra na dança; e outro; e outro. E os avulsos, os solitários - aqueles que, por qualquer razão, também resolvem dançar. Em breve, uma turma inteira – talvez um grupo de amigos que estivesse passando – ensaia seus passos numa enorme roda de música que vai além da calçada e invade a rua, misturando seu ritmo às buzinas dos carros que passam ainda em pressa.

Mas daí a um tempo, também os carros começam a parar, olhos curiosos sobre aquele espetáculo improvisado. Os motoristas descem de seus automóveis, e é bonito vê-los também dançando como se tivessem realmente preparados para aquela festa.

Todos dançam, todos dançam. Cada um dança a sua própria música, a música guardada em sua memória, em sua alegria, em sua emoção, em sua vida.

Tão imersos, todos, em suas danças, que ninguém sequer percebe que a loja de discos já está fechada.


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