O CALOR

Ela está deitada, já nos respiros do primeiro sono, quando ele sai do banho. Abre a porta do banheiro com vagar, a fim de que o barulho não desperte a mulher que ele já crê adormecida, e liberta-se no ar do quarto um pouco do vapor do banho recém tomado. Ele veste o pijama meio gasto que ela lhe deu há cinco anos, o mais confortável de todos; ela, como de costume mesmo nos dias mais frios, usa uma camisolinha leve – o peso das roupas lhe incomoda a noite.

Ele anda no escuro até a cama, caminho há tanto decorado. Sobe as cobertas apenas o suficiente para deitar-se, a fim de que o ar frio não desperte o sono chegante da mulher, carinho que o tempo traz. Deita-se com cuidado, encosta os pés quentes do banho nos pés quentes da companheira e, depois de uns segundos, acende a luz amarela do abajur que repousa no criado-mudo. Ela resmunga por causa daquela meia luz súbita, mais por hábito do que por qualquer outra razão, e volta ao sono leve em que já se encontra.

Ele então pega o livro que lê há algumas semanas e que, na verdade, nem chega a lhe despertar maiores atenções. Mas é um livro bom para ler antes de dormir, cinco ou seis páginas sem compromisso, enquanto o sono apenas vem chegando, chegando. Vai lê-lo um pouquinho, agora.

Então ela se vira ao encontro da luz e abre os olhos por um instante, só o suficiente para ter certeza de que ele está ali. Levanta a cabeça e, com a suavidade de quem dorme, cola nos lábios do marido um beijo leve de boa noite. Repousa os cabelos no ombro dele, que a acolhe e abraça com o braço direito enquanto segura o livro apenas com a mão esquerda – quando precisar trocar a página, conseguirá fazê-lo sem despertar a mulher. E depois, quando apagar a luz, ela se aconchegará mais completamente, e dormirão abraçados até amanhã, como sempre fazem.

Não há frio nesta noite, não há frio.

Nunca há.


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