A ESCOLA

Não é a cor dos prédios que o emociona, mas o ar colorido que deles exala. Ele anda pela escola, devagar em seus passos antigos e firmes de setenta anos, e ainda que o lugar não seja mais o mesmo, é como se ainda agora redescobrisse os espaços em que seus pés pisaram como estudantes. Pés aprendizes, sempre – o caminho ensina.

Fecha os olhos, nos quais repousa o brilho alegre das lágrimas secas, e permite-se apenas escutar o alarido que o circunda: são vozes e risos em que ressoa a claridade da juventude, a mesma confiança e vontade que guiavam seus movimentos quando, quarenta e cinco anos atrás, foi da primeira turma desta escola que também ensinou seu filho e agora abriga os passos confiantes de seu neto. Ele apenas escuta, de olhos fechados – assim, as vozes e risos que acontecem ao redor também acontecem em sua memória.

Segue de olhos fechados e, de repente, só o que escuta são mesmo as vozes felizes da memória. Ouve o alarido dos colegas, alguns que já não andam mais por aqui; a fala grave e respeitável dos professores; o cochicho na sala de aula; o silêncio nas explicações; a gargalhada do piadista; as combinações importantes para o fim de semana; a corrida sem pressa em direção às aulas; a respiração nervosa das provas; a sirene indicando o fim do período; o burburinho do bar; o barulho da vida.

Está emocionado, este ex-aluno – que veio buscar o neto e aproveita para sentir. Sentir o quê, bem que não sabe. Sentir – e basta.

Abre os olhos e de repente retornam as vozes de agora: ainda que sejam outras, são as mesmas do seu tempo. O mesmo barulho da vida.

“Vô!” – é o neto que se aproxima por trás e abraça-o com a força invencível de seus vinte e poucos anos. “Que bom que tu veio me buscar!”

E o avô fecha os olhos ainda outra vez, enquanto sente o abraço generoso e estabanado do neto. E então escuta a voz do garoto que segue falando consigo, passos recém entrantes na faculdade, e o que escuta é a voz do futuro.

E o mesmo, mesmíssimo barulho da vida.


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