A COPA

Rodriguinho está com os dois times prontos, guardados em máxima segurança dentro de suas respectivas caixas, para a final do campeonato de botão. Joga sozinho, no apartamento onde mora com os pais e o irmão que nunca está em casa – e que, quando está, não lhe dá a menor bola. O garoto organiza estes campeonatos seguidamente, e são sempre competições emocionantes, cheias de grandes lances, jogadas de efeito, firulas de craques, dribles de entortar pernas, defesas inesquecíveis, gols de placa e estátua. Rodriguinho faz tudo: escala os times, joga por ambos, vibra, apita, dá os tempos necessários de prorrogação, narra, comenta e transmite todos os lances pela emissora de TV imaginária que sua infância criou.

Uns campeonatos bacanas, todos eles. Mas este é especial. O moleque montou tabela enorme, as chaves bem organizadas, equipes de todas as cores e formatos, representando todos os lugares, além daqueles que ele mesmo inventou. A vitória de virada da Grosnádia sobre Rivelino do Sul, por exemplo, fora um feito para a memória do público invisível nunca esquecer. Campeonataço, pensa o garoto, orgulhoso de sua própria iniciativa.

E hoje, depois de tantos jogos e incontáveis emoções, estratégias intrincadas e desafios bárbaros, é a hora da partida final. Irão se enfrentar, na mesa cuidadosamente montada por Rodriguinho logo ao lado do armário de seu quarto, as duas equipes finalistas – aquelas que, ao longo da competição, melhor haviam se saído.

É um frio na barriga do garoto, quando ele busca, na parte de cima do armário, as duas caixas contendo os times que disputam a final. As duas melhores equipes. Busca as caixinhas com a sofreguidão angustiada de quem sabe a importância do momento.

E é com uma surpresa sem nome que ele percebe que desapareceu da caixinha o melhor jogador, o craque do seu time preferido. Como isso pode ter acontecido, ele não sabe – a mãe, a empregada, o irmão mais velho que só existia para importuná-lo, qualquer um poderia ter sumido com o craque. Procura o jogador por todos os cantos do quarto – embaixo da cama, nas gavetas, sob a mesa, na escrivaninha onde faz os temas de casa, na lata de lixo, em tudo.

E nada. Impossível ao time entrar em campo com um jogador a menos – ainda mais, sendo o craque da equipe.

Rodriguinho pensa, pensa no que fazer.

Até que decide trocar o time por outro, que está completo.

Afinal, é só um jogo, pensa o garoto. É tudo uma brincadeira.


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O SENHOR LUGAR COMUM VAI VOTAR

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DESENCONTRO

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DONA LIDIANE

DESAMOR

FILME FRANCÊS

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OS NAMORADOS

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ERENITA

 

 

 
 

 


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