O MAR AO LONGE

“Me conta de novo. Como é mesmo o mar?” – e dona Rosália tem nos olhos antigos o brilho mesmo da primeira vez. Por mais que Teresa lhe conte, sempre sobra um tanto para imaginar.

E Teresa começa outra vez a contar do mar; busca na memória gasta aquela única ocasião em que, trinta anos atrás, havia visto aquela água tão grande e salgada. O resto, Teresa inventa – a força das ondas, a cor da espuma, o salto claro dos peixes, a maciez calorosa da areia, o voo exato dos pássaros, o sabor da água.

Faz bem a Teresa contar e inventar esta história.

Faz bem a dona Rosália escutá-la e imaginá-la.

Desde que começou a fazer sua visitas ao lar de idosos, Teresa sempre teve um carinho especial por dona Rosália. Aquela velhinha tão solitária, tão sem filhos e sem família, que nunca recebia visitas e cujos raros sorrisos pareciam mortos enquanto ainda aconteciam. (Quem paga a sua vida neste lar?) As conversas com Teresa pareciam ser um respiro de leveza no peso triste de dona Rosália. Uma alegria.

E então que Teresa conta do mar à dona Rosália – este mar que viu apenas uma vez. E também lhe conta das viagens que não fez, as memórias não lembradas, as histórias que sempre quis viver e não viveu. Por isso, conta-as para dona Rosália; inventa as próprias memórias para que possa vivê-las.

Porque também ela não tem filhos, nem família. Dona Rosália, a esta altura, talvez lhe seja a pessoa mais próxima no mundo.

A que conta histórias e a que as escuta, a que cuida e a que é cuidada - amparos mútuos, Teresa e Dona Rosália. Os carinhos miúdos, as pequenas pontes para alimentar o dia seguinte.

“Amanhã, quando vier, passa um batom na minha boca?”– dona Rosália pede, sem maior razão.

Teresa fará isso – e as duas passarão batom. Para ficarmos bem bonitas, pensa.


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