PROFESSOR ZANDOR

Abro a porta do consultório esotérico do Professor Zandor e uma atmosfera de mistério e mofo envolve o pequeno ambiente. Não há mais ninguém na sala, e é o professor Zandor em pessoa – olhos perscrutantes, turbante alaranjado e um casaco verde turmalina que não combina com nada neste mundo – quem me atende.

“Problemas no amor, não é? Perdeu a namorada, não é?” – ele diz de sopetão, sem mesmo me cumprimentar, enquanto complementa as perguntas-afirmações com certos gestos que parecem copiados de novelas antigas.

Respondo que não: há horas que não encontro namoradas, quanto mais perdê-las. Ele parece desapontado, mas volta à carga.

“Problemas financeiros, então?!...”

Aceno afirmativamente com a cabeça – mas quem não tem estes problemas? O próprio Professor Zandor, a julgar pelo muquifo em que atende, deve ter os seus. E ele se anima:

“Emprego, não é?”

Respondo que pode ser. Zandor se anima ainda mais:

“Pouca valorização!” – e ele aponta para mim, como se eu fosse um gênio incompreendido, pronto para ser presidente da empresa. Aceno outra vez um sinal positivo – a verdade é que ninguém me dá mesmo muita bola no meu emprego. Igual a milhares de outros coitados.

“E você quer abrir os seus caminhos, não é?” – me pergunta e afirma Zandor. Quero, é claro – mas até o Papa quer isso.

“Então veio ao lugar certo!” – e ele sorri, satisfeito com seu acerto. – “Professor Zandor, com seus poderes, é a pessoa mais indicada para abrir os caminhos daqueles que querem subir na vida!” – faz um ademane com a mão direita, como se riscasse um bordado rápido no ar, e neste movimento quase me acerta o nariz.

“Vou dizer como fazer.” – e ele me indica uma cadeirinha velha, eu que me sente.

E me sento para ouvi-lo. Vamos ver o que ele tem a me falar. Mesmo que eu ache que não será de muita valia, porque não me parece que Zandor seja lá grande mago ou vidente.

Fosse bom, e certamente teria adivinhado que só vim entregar o orçamento do conserto de janelas que ele pediu ao meu patrão.


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