BARBARA ANTHONY

Então estou aqui, bebendo uísque neste bar de hotel, aborrecido a milhares de quilômetros de casa, numa cidade em que não conheço ninguém e para a qual minha empresa me mandou para fechar altos negócios. Fico na cidade até depois de amanhã e meu diretor confia que eu já leve alguns contratos assinados. Eu, o executivo competente.

E solitário.

Ai, eu! – o executivo solitário. Dois dias ainda sem falar com ninguém além do pessoal das empresas. Nada mais – a solidão do competente.

Mas de repente, ela entra, senta-se sozinha e eu nem acredito: é Barbara Anthony, minha atriz preferida! E consegue a proeza de ser ainda mais bonita ao vivo do que na televisão. Enquanto senta e faz sinal ao garçom, ela sorri para mim.

Então meu dia, meu mundo, minha vida – tudo muda, porque Barbara Anthony sorriu para mim. Ela, tão solitária quanto eu!

Nós dois, dividindo as solidões neste enorme hotel, cada qual em sua mesa. Devolvo a ela o sorriso, tão firme quanto possível, e penso que... bom, melhor nem pensar em nada. Mas é Barbara Anthony quem está na minha frente, e isso não é algo que aconteça muito frequentemente na vida de um ser comum.

E se? – penso eu. Por que não? Estamos ambos sozinhos, os dois enfastiados, apenas aguardando os compromissos profissionais do dia seguinte. E se eu tomasse coragem, fosse até a mesa de Barbara, dissesse que ela é minha atriz preferida e pedisse licença para lhe pagar um drinque? Ela poderia recusar – e aí eu simplesmente voltaria à minha mesa, pronto. Mas e se ela me surpreendesse e respondesse que sim? A maravilha de noite que poderia estar começando? E penso: Barbara Anthony e eu bebendo juntos, conversando, rindo, contando boas histórias um ao outro, dividindo segredos, roçando os braços neste ou naquele comentário, encostando as mãos como que por acaso, o clima começando a esquentar, eu a olhando nos olhos e dizendo como ela é linda, ela sorrindo e me retribuindo com um beijinho, roçar dos lábios, eu tomando coragem e repetindo o beijo, ela gostando, recebendo o meu beijo como presente, perguntando se eu não achava melhor ficarmos mais à vontade no seu quarto - e então seria o paraíso!...

Vou lá, penso – não tenho nada a perder.

Mas quando me levanto, chega o namorado de Barbara Anthony - e beija-a com a mesma intensidade com que eu antes a havia beijado em meu pensamento.

Volto à mesa, peço outro uísque ao garçom. Vou beber sozinho. E depois vou sozinho para o meu quarto.


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