O BIGODE

Juliana e Gilberto recém haviam começado a namorar, aqueles dias bons em que os casais estão se conhecendo, quando ele resolveu aparecer com um bigode. A mulher protestou:

“Tira isto, Gilberto! Coisa mais feia! Se ainda fosse um bigode de respeito, até seria bonito! Mas isso aí...” – e ela não completou a frase, ainda não conhecia bem o namorado para saber sua reação.

Ele passou a mão sob o nariz, mal sentindo os pelinhos tímidos e desparelhos que recém brotavam, e naquela hora decidiu que precisava manter o tal bigode. Se o raspasse, logo no início da relação, Juliana acabaria mandando em tudo. Mantê-lo, naquela hora, era um ato de soberania.

“Quê tirar, coisa nenhuma! Vou é deixar este bigodão!” – ele comentou, mesmo sabendo que de bigodão aquele montinho ralo de cabelos não tinha nada... Era mais um amontoado de pouco futuro, que certamente não daria em nada muito bonito – mas a hora era de manter a independência.

Juliana deu um sorriso amarelo e eles mudaram de assunto.

Mas o bigode passou a ser uma espécie de sombra nos assuntos do casal. Gilberto acreditava que a namorada não conseguia desviar os olhos sempre irônicos da mecha sem graça abaixo de seu nariz; Juliana achava que o namorado novo passava o tempo inteiro defendendo aqueles cabelinhos tortos e feios.

Vez por outra, um dos dois fazia alguma comentário a respeito; ela, espinafrando; ele, defendendo o território.

Então deixaram de falar no assunto. Mas o bigode permaneceu no meio da relação, tema proibido. Os silêncios, o cuidado nas palavras.

O incômodo, sempre.

Até que brigaram, claro.

Um tempinho depois, Juliana já estava de namorado novo.

Gilberto ainda não. Ele até que andava tentando, mas não tem dado muita sorte em suas conquistas.

Deve ser por causa do bigode.


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