QUE SEJA ASSIM

Alguns caras até tinham dito que aquilo era nada a ver, mas Helena tinha respondido que nada a ver mesmo era o papo dos caras. Prá que ir, comentaram eles, que isso e aquilo. Disseram que era tudo igual, que não mudava, que tudo uma bosta, que não dava nada – mas tudo bobagem dos moleques.

Na real, ela sabe que nem é tanto isso. Ela entende este lance de ir prá festa no sábado, encher a cara ou ficar zoando com as meninas até de manhã e depois querer dormir o domingo inteiro, só acordar lá no fim da tarde ou coisa parecida, comer um lanche e depois dormir de novo. Até se entende, é mesmo divertido – Helena também gosta, claro que sim. Mas, pô, um fim de semana que seja, dá prá maneirar, chegar um pouco mais cedo, sabe lá. Porque precisa levar a coisa a sério. É importante.

Mais do que importante - é essencial.

Ela sabe um pouco pelo que leu, outro tanto pelo que lhe contam os pais, os avós, os professores. O avô conta que participou de umas passeatas lá na década de sessenta, tomou pau da polícia e que depois a coisa toda tinha ficado muito triste, muito perigosa. Uma nuvem de medo sobre o país – a frase é do vô. A escolha era de cima para baixo e pronto – ninguém podia discutir. Quem discutisse, pagava o preço. Sabe lá o que é isso, não ter o poder da escolha? Anos e anos com esta nuvem de medo por cima do país? Ou seja, teve muita luta boa para se conseguir chegar no dia de hoje. Ela sabe que isso não pode ser esquecido.

Mas ela sabe – e aí já é mesmo por conta própria, não pelo que dizem os outros – que não adianta achar que a coisa toda se resolve agora, só neste dia. Nada! Que hoje é importante, claro que é! Mas de que adianta aproveitar hoje e depois achar que já fez a sua parte e deixar tudo na mão dos outros? Helena sabe que não é assim, que não pode ser assim. A eleição pode até ser um dia só, mas a cidadania exige o ano inteiro.

Cidadania - direitos e deveres. Como os pais, os avós e os professores haviam dito.

É por isso que agora ela estende o título de eleitora estalando de novo, documento lindo.

“Primeira vez que vota?” – pergunta o mesário, sorrindo.

“Sim.” – Helena responde, sorrindo também.

Primeira de muitas, ela pensa.


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