AQUELE CLIMA DE INDECISÃO

Ele para o carro em frente ao sinal que recém avermelhou, cantarola sem perceber a música que está tocando no rádio, sacudindo a cabeça como se estivesse dançando, e então olha para a esquerda. No automóvel ao lado, luminosa e bela, a motorista sorri para ele (só digo que é bela, sim. Não sei se será loira ou negra, alta ou ruiva, o leitor que a imagine.)

Ele sorri de volta, quase que por reflexo, ao mesmo tempo em que retorna o olhar para frente, cessa o canto e a pobre dancinha. E se esta mulher bonita não estiver sorrindo para mim, e apenas rindo deste meu desengonço? – ele pensa, sério. Mas pode ser que ela esteja mesmo me sorrindo (ele também pensa), não sou de todo feio e talvez este sacolejar de cabeça tenha parecido simpático à dona.

Olha de soslaio à mulher, e ela ainda está sorrindo em sua direção. E então se abrem para ele as maravilhas das possibilidades.

Deus do céu, ele pensa, a mulher bonita segue sorrindo para mim! Então o riso dela não é um deboche! Mas e agora, o que faço? Começo a dançar de novo (descolado), sorrio de volta para ela, tento algum contato visual, um comentário? Ou finjo que nem estou percebendo?

Ele agora tamborila as mãos sobre o guidom, inteiramente esquecido da música que ainda segue tocando no rádio, pensando apenas no que fazer em relação à bela sorridente do automóvel ao lado. Não vou fazer nada, pensa ele. Mas logo depois pensa que talvez esta seja uma oportunidade para algo que sequer sabe bem o que é. O tempo passando, enquanto ele olha fixo para o semáforo e percebe, mesmo sem olhar, que a mulher no carro ao lado continua sorrindo. Olha para baixo por um instante, como se quisesse dar-se conta de que o rádio de seu automóvel ainda está ligado, mas mais para pensar ainda outra vez no que fazer.

Ah, que se dane a cautela!, pensa ele afinal. O máximo que ela pode fazer é me xingar. Mas também pode continuar sorrindo e me alcançar o número do seu telefone.

Vou falar com ela, decide.

Mas quando levanta novamente a cabeça, o carro da bela já não está mais ali.


Outros Contos


NICOLAU

JAIRO

AINDA CARNAVAL

ISTO, O QUE CHAMAM JUSTIÇA?

MADRUGADA

S/A

O COLEÓPTERO TERROSO POUSOU NA RUBIÁCEA

PEQUENOS NATAIS

A VIAGEM

TIA ESTER

BAILE DE DOMINGO

DOIS SILÊNCIOS

LIBERDADE DE OPRESSÃO

OCORRÊNCIA POLICIAL

QUE SEJA ASSIM

CINQUENTA

JOGANDO BOLA NO CÉU

ACERTO DE CONTAS

O CHAPÉU MÁGICO

AS FLORES DE MARÍLIA

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais