A BAILARININHA

Dentre todas, ela é a menor. Terá talvez três anos, não mais. A professora prepara as sete pequenas dançarinas para se apresentarem no espetáculo da escola e ela é a mais empolgada, o vestidinho azul pedindo para entrar logo no palco. O palco – esta coisa que ela nem sabe ainda o que é, mas que sente ser mágica.

Hora de entrar em cena, ordena a professora às sete. Vamos dançar uma música só, diz ela. E entram todas, cada qual em seu balé particular, um mais gracioso que o outro, e a platéia inteira vibra. Todas compenetradíssimas, atrizes mais ou menos sabedoras de seus papeis, as bailarinas já estão em seus lugares e duas dançam ainda antes da música começar, enquanto outra esquece de fazê-lo depois que a trilha inicia. E há outra, enfim, que se assusta com tanta gente à sua frente, centenas de sorrisos e aplausos em que não consegue enxergar pai e mãe – e então não sabe se dança ou chora.

Mas ai, a bailarininha de azul. A menor de todas, em seus talvez três anos.

Ela dança a sua própria música e em seus próprios passos. Tanto faz, agora, que haja trilha ou não; ela a escuta de qualquer jeito – ou, mais que isso, a inventa. O ritmo de seus passinhos curtos, os pequenos saltos que dá de um lado ao outro deste palco que suas perninhas infantes recém descobrem, os tombinhos leves que mais parecem coreografados e dos quais ela levanta ainda mais feliz e rampante – tudo é festa e espetáculo. Há, sim, a coreografia que a profe ensinou, mas há outra, muito mais intensa, que corre e se desenvolve dentro da pequena, dança de delícia e alegria, misturada aos aplausos amorosos da platéia.

Ah, a bailarina.

A música termina (quem se importa?), mas ela segue dançando. As coleguinhas saem do palco; ela, não. Prossegue em seus passos inventados na hora, o bailado que se forma em seus próprios movimentos, acompanhada que está pela admiração recém descoberta do público. Fica ali talvez um minuto, enquanto a professora a chama, da coxia – sem que ela perceba.

A bailarininha só sai do palco no colo da professora, que não encontra outro remédio senão carregar a pequena exibida. A pequena sai carregada, agradecendo aos aplausos e a admiração.

Já sabe, ainda sem saber, que esta é a vida que deseja.


Outros Contos


ARCO-ÍRIS

O BILHETE – II

MEIA LUZ, MEIA VERDADE

A PROFESSORA

A HISTÓRIA

AO MAR

OS CINCO SUPER HERÓIS

A COPA

A IMAGEM QUE O ESPELHO ME DEVOLVE

RESPEITÁVEL PÚBLICO

ERENITA

BURRO DA PÁSCOA

O FLECHA

MENELAU

AS UVAS VERDES

SCLIAR

VINTE E DOIS

SAPATOS NOVOS

FAZER O PÃO

OS DIAS LONGOS

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais