A CAMISINHA

Minha filha me liga e, no esplendor distraído de seus dezoito anos, está também preocupada: não sabe onde deixou a carteira de identidade. Pede-me que eu olhe em seu criado mudo.

Vou ao quarto de Milena, abro a gaveta do pequeno móvel: o documento está lá. Mas há mais: no meio dos pertences e papelada, está um pacote de camisinhas aberto – e falta uma.

Um pequeno choque – meu bebê não é mais bebê.

Mas, na mesma hora, me lembro da notícia que escutei ainda há pouco e que me deixou aterrorizada: de cada três novos infectados com o vírus da AIDS no Brasil, um tem entre quinze e vinte e quatro anos! Um moleque ou menina, que ainda nem começou completamente a vida, e já pode estar no caminho de perdê-la. E o médico entrevistado na reportagem dava uma das razões para isso: esta é a geração que cresceu sem o pânico da doença, que já não se dá conta que a AIDS mata. Mata! Minha geração via, no noticiário, alguns de seus ídolos morrendo aos poucos – Cazuza, Betinho, Henfil, Renato Russo, Freddie Mercury, Caio Fernando Abreu. A doença não tinha cura, e as campanhas públicas lembravam isso o tempo inteiro. Continua não tendo cura, mas os tratamentos e medicamentos permitem uma vida mais ou menos normal (mas ter que tomar um coquetel de remédios todos os dias, os efeitos colaterais, a imunidade lá embaixo, cuidar-se o tempo inteiro, porque uma gripe pode ser fatal!...). Isso, aliado à diminuição das campanhas de conscientização, fez com que a garotada relaxasse – fazendo sexo sem proteção. Comigo não acontece - pensam eles; só com os outros.

Mas minha filha, penso eu, está se protegendo. (E por conta, porque ainda não tivemos a conversa boa que deveríamos ter sobre o assunto - a falha é minha.)

Volto ao telefone:

“A carteira está aqui.” – do outro lado, ela suspira aliviada – “E a camisinha, está na tua bolsa?”

O silêncio surpreso de um segundo; depois Milena responde e ri ao mesmo tempo:

“Sim, mãe! Pode deixar, que isso eu não esqueço.”

E ficamos ambas, um pouco constrangidas, falando sobre qualquer coisa.

Quando desligo o telefone, não sei bem o que pensar. Mas acho que estou feliz.


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