PAPAI SABE TUDO

Quando Vitorino chega em casa, a filha o aguarda com certa ansiedade solene: tem uma notícia importante para contar ao pai. Senta, pai, pediu a pequena.

“Eu descobri que Papai Noel não existe.” - diz ela, abrindo o sorriso banguela de seus cinco anos.

Uau, pensa ele - muito cedo para esta conversa em sua vida de pai. Vitorino acreditara em Papai Noel até os sete, oito anos – tão bom. E talvez ache que é muito cedo para que ela desacredite - o espírito do Natal, os valores, a festa, estas coisas todas. Tanto que não sabe bem o que responder à esta pitoca que aguarda suas palavras, um pouco desafiante. Mas algo dentro de si lhe diz que não irá simplesmente concordar com a filha.

“Mas quem te disse isso?” - Vitorino pergunta, um pouco para ganhar tempo.

“O Felipe, da escolinha. A mãe dele que contou.”

“Mas será que é mesmo verdade?” - pergunta ele. – “E este velhinho que a gente enxerga por aí, de vermelho, cheio de presentes?”

`É um tio.” - responde a filha, seca, e mais não diz. Apenas espera.

“Pois é...” - diz ele (e agora?). – “Mas como é que a gente explica ele respondendo as cartinhas, vindo lááá do Pólo Norte, distribuindo os presentes?... Tão bonito, isso.”

´É um tio.” - repete a pequena, resoluta.

“Bom, quem sabe? Mas vou conversar com tua mãe, perguntar o que ela sabe.” – mulheres entendem melhor estas coisas de psicologia, ele pensa.

“Não precisa, pai. É um tio. Um tio que se veste.”

“Ahã. Pode ser.” – é só o que ele diz, o melhor é andar aos poucos com esta conversa, continuá-la outra hora: pego de surpresa, não sabe de que forma substituir, assim tão de repente, o símbolo. – “Mas eu ainda acho que pode ser que ele existe...”

A pequena o olha com certo espanto – será mesmo?

“E como foi na escolinha hoje?” – ele pergunta.

O pai quer mudar de assunto - a filha percebe – porque ficou sem saber o que dizer com a notícia que recém havia recebido. O impacto da novidade. O pai vai sofrer uns dias, pensar, digerir o assunto – mas depois aceitará.

Até porque um dia, pensa ela, ele teria mesmo que saber a verdade.


Outros Contos


ATRAQUE

GRITO

O ERRO NOS OLHOS

LINHAGEM

EMÍLIA AO TELEFONE

EM BOA COMPANHIA

O CÃO AZUL

A HISTÓRIA

UM DIA ENSOLARADO DE PRIMAVERA

MADRUGADA

ALTA SOCIEDADE

O BARBEIRO

O ANJO NA JANELA

AINDA CARNAVAL

O BILHETE

ELAS

AS FLORES DE MARÍLIA

O CALOR

O FIM DO MUNDO

DESENCONTRO

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais