O CHEFE

Estamos tomando cerveja e jogando sinuca no bar, quando Mosquito entra urgente, a voz emocionada:

“Ventania está brigando!”

Ventania é o chefe da nossa quebrada. Dezesseis anos – como nós – mas já não há por aqui quem se anime a enfrentá-lo. Ele é todo coragem e ousadia, destemor e agilidade, força e malandragem.

E é nosso amigo.

Por isso, paramos o jogo – eu estava tomando uma lavada do Sandro Zarolho –, engolimos num gole as nossas cervejas e ele nos conta, enquanto vamos à briga: Ventania havia sido desafiado pelo Fito, um valentão que mora duas ou três ruas acima, pela chefia da zona. Quem ganhasse, mandaria em tudo.

Quando chegamos, eles já estão brigando – as mãos limpas – e posso perceber nos olhos de Ventania um fulgor de agradecimento porque estamos ali. Paramos num semicírculo – a outra metade é da turma do Fito – e apenas torcemos, coração na boca. Ventania é nosso amigo e nosso chefe, a honra de nossa zona está na arena.

São dois brigadores de primeira. Socos e esquivas, pontapés e saltos, rabos de arraia e provocações, clarão de combate no meio da rua. Eles se estudam e se batem, cada golpe é um estrondo, mas ninguém cai – por isso são chefes.

Até que, num repente, Ventania carrega o punho esquerdo contra a cara de Fito, mas este se esquiva e o golpe passa ao lado. Ventania se desequilibra e, naquele instante, Fito lhe acerta no nariz um soco monumental, como para derrubar estátuas, e que dói em nós, que apenas assistimos.

Ventania parece não entender que levou um golpe, e só percebe que perdeu a luta no instante seguinte, quando revira os olhos para o céu, olha para nós como se não nos conhecesse – e cai.

Ficamos todos num silêncio de respeito, esperando que Ventania se levante, mas não: ele está lá, jogado ao chão, desmaiado ou sabe-se lá. Esperamos um tempo, uma eternidade – e nosso amigo não se mexe.

E então, vamos saudar o novo chefe.


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