AS PERGUNTAS QUE NÃO SÃO FEITAS

No corredor empoeirado dos romances, Eugênio folheava sem maior interesse um livro usado, quando assustou-se de repente: entre as páginas de um volume, sabe-se lá como esquecida, estava a fotografia de sua mulher. Olhou novamente, para confirmar, e o susto se repetiu: era mesmo Giovana quem, olhar perdido de quem não sabe, aparecia naquele retrato, atravessando uma rua movimentada e vestindo o casaco amarelo que ele mesmo lhe presenteara. O que é isso, pensou, o que a foto de minha mulher faz aqui?

Perguntou ao livreiro se ele recordava quem lhe havia vendido o exemplar, mas o homem não sabia: tantos os livros que chegavam.

Eugênio então comprou o volume, fotografia no meio das mesmas páginas em que a encontrara, e tomou angustiado o caminho de casa, decidido a esperar por Giovana e esclarecer a situação.

Mas Giovana não soube explicar nada.

Quando mostrou a foto, o susto da mulher foi tão verdadeiro quanto o dele. Ela teve um rápido tremor, e o que pareceu sentir foi medo: o que era aquilo e por quê? Depois ficou muda.

Antes que Eugênio lhe pedisse uma explicação, os olhos agoniados da mulher responderam que não havia – ou, se houvesse, ela não a conhecia. Não tinha a menor idéia de quem tirara a fotografia, menos ainda como havia parado dentro daquele livro. E estava amedrontada, arrepio ruim a percorrer-lhe as costelas – que doido perigoso havia feito aquilo?

Ficaram em silêncio por minutos, contando as horas.

Ele então percebeu o medo da mulher, maior que sua interrogação. Pegou a foto das mãos de Giovana e rasgou-a, sem deixar-se pensar duas vezes. Depois, colocou no lixo os pedaços de papel.

“Melhor esquecer isso tudo.”

Ela concordou, sem saber mais o que dizer, e a partir daquele instante, num acordo tácito, ambos resolveram não falar mais no assunto.

Mas há uma quebra no casamento. Eles se olham e não dizem nada, mas sabem que algo aconteceu.


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