O VELHO ATOR

O velho ator decidiu que está na hora de parar. São décadas de palco, quase sessenta anos nesta vida dura, e o corpo, agora que se aproxima dos oitenta, parece pedir descanso.

Enquanto aguarda sua entrada em cena, ele repassa outra vez o texto, cuidado desdobrado que o público sempre mereceu – quantas vezes terá feito isso, neste tempo que é quase vida inteira? Perdeu a conta, em palcos grandes e pequenos, em praças e auditórios, em bares e ginásios, nos camarins espaçosos dos grandes centros e nos cantinhos improvisados das cidadezinhas perdidas no mapa. Não é quase a vida inteira, pensa: é a própria vida.

Doi parar.

Mas é que também lhe doi o corpo, um cansaço que já não lhe permite um ou outro movimento, que faz com que levantar-se da cadeira às vezes seja quase uma aventura, que lhe pesa nas pernas e dobra o tamanho do palco.

E também lhe doi a memória. Ai, a memória, esta amiga traiçoeira e que agora lhe falta em alguns instantes. Não sempre, é raro. São uns lampejos de esquecimento, consertados no improviso, mas que o incomodam: nunca foi isso, nunca deixou seu público com um texto pela metade e não quer dar a chance para que isso aconteça. Não quer que o lembrem pelos esquecimentos.

Doi parar, mas é a hora. Ele suspira, e a umidade que lhe borra um pouco da maquiagem é apenas o retrato do que ele, velho e contido ator, sempre reservou para as próprias emoções. Não vai chorar, diz para si mesmo, como lembrança e exercício.

“É a tua hora.” – ordena o assistente de palco, e ele vai.

*****

Mas quando ele entra em cena, a peça para. As luzes se acendem de uma vez só, os outros atores sorriem e o diretor sobe no palco com um enorme ramalhete de flores brancas. Logo ali, à frente, a platéia o aplaude de pé. O aplauso, ele pensa – disso terá saudade. E não quer ter esta saudade.

E então pensa que talvez ainda possa atuar mais um tempo.


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