A VOZ

Atendo o telefone e é uma voz macia que pergunta:

“Oi, Juarez, tudo bem contigo?”

Não posso dizer que sim, porque não sou o Juarez - é o que respondo. Ela ri da minha resposta - uma risada clara - e me agrada demais a melodia com que me pede desculpas pelo engano. Que voz, penso.

“Vou tentar um outro número que tenho, então. Obrigado.”

“Mas espera! Não desliga, por favor!” - exclamo, num ímpeto.

“O que foi, moço??” - a mulher parece se assustar ao telefone; o fato é que nem eu mesmo sei ao certo porque pedi que não desligasse.

“...É que eu achei a sua voz muito bonita, queria conversar mais um pouco...” (ai, a solidão – será que é este o nome de meu ímpeto?).

Ela ri novamente, não sabe bem o que responder:

“Mas conversar o quê?” - ela me pergunta.

“...Não sei... sobre a vida, sobre teus planos, teus projetos, sei lá...Me fala o teu nome... É que eu achei a tua voz muito bonita, mesmo! Queria conversar com tua voz...” - repito, cada vez mais idiota.

“Pois é...” - ela não quer ser indelicada, percebo. – “Mas é que eu estou meio sem tempo agora, sabe?”...

“Posso te ligar outra hora, talvez?” - nem sei por que pergunto isso.

“Melhor não...” - a voz responde, e há certo alarme em seu tom. – “Pode não ficar bem, o senhor sabe...” - ela me chama assim para se distanciar um pouco mais.

“Mas só conversar um pouco!..”

“Não, melhor não... E desculpe, eu preciso desligar. Preciso falar com o Juarez.”

A voz desliga o telefone e fico eu pensando na bobagem que fiz. Aliás, nem sei por que fiz isso. Talvez a mulher tenha me encontrado num momento mais frágil, talvez a voz seja mesmo uma beleza, talvez eu tenha achado que um engano telefônico pudesse ser o sinal de algo grande, talvez eu quisesse apenas conversar com alguém, talvez.

Sei lá.

De qualquer modo, este Juarez é um homem de sorte.


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