NAQUELE INSTANTE DE ESTUPIDEZ

Naquele instante de estupidez, ele esquece que o futebol, além de jogo, também é festa. Que existe como alegria e espetáculo. Que toda jogada bonita, qualquer que seja o time, deveria merecer palmas e bons assovios. Que a disputa dos jogadores fica entre as quatro linhas e nada além. Que após a partida, os adversários se abraçam, trocam as camisetas suadas e às vezes relembram os tempos antigos em que jogaram no mesmo clube. Que todos – todos! – os anos tem campeonato. Que o perdedor deste ano pode ser o vencedor do ano que vem (e que isso é bom: ganhar todos os anos seria tão chato...) Que uma partida de futebol não é guerra, nem dentro e nem fora do campo. E que mesmo as guerras tem limites. Nada disso ele consegue enxergar, naquele instante de estupidez.

Naquele instante de estupidez, ele não consegue enxergar o torcedor do outro time como um possível amigo, um colega de escola, um companheiro de trabalho, alguém que talvez goste das mesmas músicas, um piadista com quem se pode dar boas risadas num boteco ou torcer juntos num jogo da seleção. Ou alguém que simplesmente deve e merece, depois do jogo, a chance simples de ir tocando a vida. Naquele instante de estupidez, ele não consegue nem, ao menos, ver este outro torcedor como ser humano.

Ele esquece dos seus amigos que são torcedores de outros times e que nem por isso são menos amigos.

Nada disso.

Naquele instante de estupidez, ele só consegue enxergar o torcedor do outro time como inimigo. Alguém que comete o crime de torcer para outra equipe.

Naquele instante de estupidez ele dispara o tiro. Ou acerta o golpe. Ou desfere a facada. Tanto faz.

E naquele instante de estupidez, uma mãe começa a morrer.


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