O CONDE

Eriberto entrou no boteco em que bebia todos os dias e a estupefação dos amigos foi geral. Não era para menos: ele vestia umas calças fofas de cetim vermelho, camisa bufante e capa amarelo-ocre, botas de montaria e um barretinho verde, no qual despontava a pena de um pobre e desavisado pavão. Na cintura, uma espada plástica; no rosto, um pouco de alvaiade e o bigodinho inteiramente sem noção.

O pessoal caiu na risada – mas o que era aquilo?

“Minha fantasia pro carnaval. Passei aqui só para dar uma esquentada nas baterias. Depois, vou para a avenida, para os bailes, os salões, as festas, onde der... Hoje eu me dou bem!” – vaticinou.

“Mas desse jeito?” – perguntou o Almir (Eriberto já meio incomodado com a falta de respeito dos amigos) – “Que fantasia é essa?”

“Ué, no carnaval só pode ter um rei – o Rei Momo. Mas fantasia de nobre tá liberada. Por isso, esta minha fantasia de conde.” – e apontou para si mesmo, num gesto que considerou galante.

“Conde?” – gargalhou o Matias. – “Só se for o Conde Nado.” – e o pessoal ria e ria.

“Roupa mais ridícula, Eriberto! Tira isso aí, homem de Deus! – pediu o Veveco, enquanto chorava de tanta risada.

“Roupa de conde, cara de bobo!” – disse outro.

“Ainda bem que não se fantasiou de Adão!” – comentou o Maguila.

E ainda às gargalhadas, o bar inteiro ergueu um brinde em homenagem ao Conde Nado. Esse Eriberto inventava cada uma!

Ele não deu bola às provocações. Pediu uma cachaça de marca boa. Tomou-a num gole só, o dedo mindinho esticado, sem dar pelota aos comentários e piadas dos amigos.

Afinal, um conde não pode perder a elegância por qualquer motivo.


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