O GURI DALTÔNICO CHEGA AO CÉU

E então chegou ao céu o guri daltônico e que gostava de contar histórias. Por enquanto, estava achando o lugar bem bacana, e mal conseguira conter o riso quando São Pedro veio recepcioná-lo, as chaves do lugar balançando na cintura: ninguém tinha contado ao guri que as barbas do santo eram verdes!

Mas é claro que o guri andava caminhando nas nuvens (estas nuvens cor-de-rosa, engraçadas) com alguma preocupação. Durante todos os seus anos de infância, que começaram no pampa – piá farroupilha - e nunca terminaram, era lá para cima, longelongelonge, no céu, que ele olhava quando queria enxergar as pandorgas. Lindas sempre, de todas as cores, tamanhos, misturas e formatos. As pipas eram seu fascínio, passava horas olhando o céu e imaginando histórias. Histórias que, mais adiante, contaria aos outros.

Mas havia esta preocupação recém nascida: agora que já estava no céu, como faria para olhar para cima e procurar pandorgas?

Mas então passava pela estrada azul claro (as estradas do céu tinham várias cores, pensou) um molequinho menor do que ele, e o guri daltônico resolveu compartir sua inquietação: como empinar pandorgas ao céu, se já estavam no céu?

O pequeno olhou para ele e respondeu que era simples: em vez de brincarem com os papagaios lááá em cima, brincavam com eles lááá embaixo.

“Mas e funciona?” – perguntou o guri, intrigado.

“É uma beleza, sempre tem vento. Só precisa saber desviar das estrelas.” – respondeu o moleque, adendando que até São Pedro, vez por outra, entrava na brincadeira. (O guri imaginou aquele velhinho gordo e de barbas verdes lutando com os fios da pandorga, enlinhando-os numa das pontas do Cruzeiro do Sul, e não pode deixar de sorrir.)

“E até dá para empinar papagaios para cima.” – continuou o garoto, apontando a mão esquerda para o espaço – “Mas precisa ser muito bom de pipa. É que os ventos de cima são diferentes: não é mais simplesmente o céu, já é a Eternidade.”

O guri daltônico sorriu outra vez, bom de braço que era: era lá na Eternidade que iria empinar suas pandorgas.

Vou gostar deste lugar, pensou ele.


Outros Contos


MAX, QUE TRATA BEM AS PALAVRAS

OITO DE MARÇO

A MÃE E A FADA DO DENTE

UMA ANGÚSTIA, SABE?

O DISCURSO

NAQUELE INSTANTE DE ESTUPIDEZ

ESTE ANO

A INDEPENDÊNCIA

O AMULETO

AQUELE CLIMA DE INDECISÃO

O GÊNIO NA VIDA DE VICENTE

GRITO

O RETRATO

OUTRA CENA DE PRAIA

NÓS PRECISAMOS CONVERSAR

O AUMENTO (versão 3)

POR ONDE ANDARÁ RICARDO?

MULTICORES

A FAMÍLIA

TIA ESTER

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais