O COLEÓPTERO TERROSO POUSOU NA RUBIÁCEA

Um branco.

O escritor olha para a tela do computador, ameaçadora e vazia, e não consegue pensar em nenhum tema para o conto que, semanalmente, tem o agradável (e assustador!) compromisso de escrever. Está chegando a hora de remetê-lo ao seu editor e nenhuma - mas nenhuma, mesmo! - ideia que preste lhe apareceu. Nada que lhe dê algum estalo que valha a pena.

O computador à sua frente parece aguardar, talvez acostumado a esta contumaz falta de inspiração, que a cada nova semana mais se assemelha a um deserto. O escritor, sentado na cadeira confortável que comprou justamente para ficar bem à vontade na hora em que escreve, aperta as teclas apenas para escutar o barulhinho de algo acontecendo, para que o silêncio desta noite de quinta-feira não seja tão abrumador. Escreve algumas letrinhas sem noção, algo do tipo rspspwspdcmtpf, e depois as apaga. Bebe um gole de vinho, olha para o lado e volta à tela: segue tudo em branco. Nenhum milagre aconteceu.

Claro que poderia sucumbir ao lugar comum e escrever aquela mesma ladainha de sempre - tantas vezes já escritas e por tantos tão mais talentosos do que ele - , da angústia do escritor em frente à folha ou tela em branco, como se este fosse o grande problema mundial, mas não é para isso que o pagam. (Aliás, se der uma olhada nos textos mais antigos, certamente encontrará algum que fale sobre esta angústia. Mas quem se importa com ela?)

Procura no dicionário alguma palavra que lhe dê pistas ao texto, mas nada: vá lá saber o que poderia escrever com ´coleóptero´, ´rubiácea´ ou `terroso! ´

´O coleóptero terroso pousou na rubiácea´- que horror seria esta frase, por Deus!

Bebe outro gole de vinho, tamborila os dedos sobre o dicionário. Tamborila os dedos sobre o dicionário, bebe outro gole de vinho.

E o tempo que passa.

O branco da tela segue ali – e agora é a hora final. Qualquer que seja a bobagem escolhida, o conto precisa sair.

Respira fundo, bebe um último gole de vinho, tamborila os dedos sobre o dicionário, e decide. Então escreve a primeira frase do conto da semana:

“O coleóptero terroso pousou na rubiácea.”

Vou precisar de mais vinho, ele pensa.


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