AS SOLIDÕES

A nova vizinha chegou há pouco mais de uma semana e, desde então, não mais a vi. Enxerguei-a apenas no dia da mudança, velhinha e triste, sentada numa poltrona e parecendo misturada aos móveis e badulaques que, com certo cuidado, os homens da transportadora desembarcavam. Uma senhorinha miúda, dos seus setenta e tantos anos, o olhar perdido de quem não sabe mais o que está acontecendo – ou o olhar de quem sabe e não se importa. Cumprimentei-a e ela me devolveu a saudação com um aceno tímido, sem sorriso.

Escuto o som que vem de seu piano, o dia inteiro. De manhã à noite, quase sem parar – as pequenas paradas na música devem ser apenas para comer, tomar banho, dormir. Talvez chorar, às vezes (imagino). São umas valsas melancólicas, melodias chorosas, que atravessam o dia como uma espécie de lamento que nunca termina.

E penso, então, no que pode ser a solidão desta senhora.

Porque esta música triste e que atravessa paredes é o único sinal de vida daquele apartamento. Imagino-a numa espécie de escuridão silenciosa e perene, sem ninguém que a chame ou que com ela converse, apenas gastando a solidão de seus dias enquanto toca as melodias que devem encher de saudade os seus dias. As músicas cheias de memória. O tempo como algo que não se conta.

Ai, a solidão que imagino para esta senhora – ela, sozinha, sentada, o dia inteiro à frente do seu piano.

Fico imaginando a cena.

Só imaginando a cena.

Passo os dias inteiros a fazer isso, sentado na poltrona ao lado da parede, enquanto - sozinho e no escuro - escuto a música que chega do apartamento ao lado.


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