BOA VIZINHANÇA

“Prezado Vizinho do 703:

Embora não nos conheçamos pessoalmente, já devemos ter nos cruzado pelos corredores do condomínio, tendo em vista que resido no apartamento nº 704, imediatamente ao lado do seu. Estou lhe passando este bilhete pela sacada, com auxílio de uma vassoura e dois prendedores, a fim de solicitar-lhe a especial gentileza de podar as plantas carnívoras que, há anos, cria na área de serviço de seu apartamento.

Ocorre que, há certo tempo, as plantas do vizinho vêm invadindo o imóvel em que resido, causando-me alguns transtornos. Além da sujeira habitual, tais como folhas e restos de insetos, informo que as plantas, talvez à falta de uma alimentação mais consistente, têm saciado sua fome com aquilo que encontram em meu apartamento. O vizinho, por exemplo, deve ter reparado, que subitamente cessaram os latidos que infernizaram diversas noites do prédio. A explicação é simples: as plantas devoraram o poodle de minha esposa. Nenhum problema para mim, que já não agüentava os ganidos histéricos daquele animal, mas os ossinhos no carpete foram difíceis de limpar. Os móveis da sala – mesa, cadeiras, sofá, poltrona, mesinha de centro, estante das fotografias, o aquário com o peixinho dourado – também foram, um a um, consumidos pelos braços e gargantas vorazes de sua plantação. Também neste item não se pode dizer que tenha havido maior problema, tendo em vista que não saímos muito e pouco recebemos visitas, razão pela qual a ausência de um sofá faz pequena diferença. Mas a sujeira. Depois, as plantas invadiram o meu armário e devoraram todas as minhas roupas. Camisas, calças, paletós, bermudas, sapatos, tudo desapareceu. Para mim fez pouca diferença, porque – como já disse – não sou de sair muito, e o pijama que sobrou, em que pese esteja um pouco encardido, me basta. A porta da entrada não foi engolida, mas as plantas a enredaram de tal forma que é impossível sair (por isso, o bilhete pela sacada). E há três semanas, veja só!, as famintas devoraram minha esposa. Inteirinha, não sobrou nada. Até aí, também não há motivo de preocupação – estávamos nos separando, e a verdade é que suas plantas me economizaram um bom dinheiro em advogado. Obrigado. Na semana passada, engoliram o fogão, que não chega a fazer falta porque, desde que minha esposa se foi, só tenho me alimentado com leite em pó, biscoitos e enlatados. Como o vizinho pode ver, também aí não há problema.

Mas estou lhe mandando este bilhete pedindo providências porque reparei que suas plantas agora estão crescendo em direção à minha TV. E sem televisão eu não consigo viver.

Atenciosamente,

Seu vizinho do 704.”


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