OS NAMORADOS

Há quarenta e cinco anos, foram namorados, e então se amavam como poucos casais à sua volta. Mas amores intensos também podem terminar – e um dia, ninguém nunca soube bem por que razão, cada um precisou ir para um lado. E foram, ambos.

Ele teve, tempos depois, um casamento feliz, duradouro. Ela teve três – no mais das vezes e dos tempos, também felizes. Nestes anos todos, amando quem estivesse consigo, não chegavam a lembrar verdadeiramente um do outro – mas a verdade é que também nunca se esqueceram.

Ela separou-se, está sozinha; ele enviuvou, também está. Andam ambos se acercando dos setenta anos.

E se encontraram, por acaso, agora há pouco. Na fila do supermercado.

Foi um susto bom para ambos. Eles se reconheceram logo e também logo sorriram. Ninguém tentou esconder as sombras que o tempo havia feito, ele e ela com rugas, ela e ele com marcas. Mas por baixo destas marcas, eles pareceram se enxergar como há quarenta e cinco anos, enquanto que, na fila mesmo do mercado, começavam a se redescobrir.

Vamos tomar um café, ela propôs – e ele concordou.

Pediram dois capuccinos, os carrinhos do supermercado estacionados ao lado de sua mesa, e foi como se os assuntos desabassem sobre ambos. Os dois contaram um pouco de suas vidas, por onde e com quem haviam andado, e havia em seus olhos cansados um carinho redivivo e tão, tão grande. Eles riram um bocado e se emocionaram outro tanto, dividindo entre si aqueles quarenta e cinco anos de ausência, enquanto se adivinhavam um pouco e se davam conta do quanto mesmo ainda se conheciam, depois de todo aquele tempo. Sorrisos cúmplices e emoções compartidas, repetiram os cafés e só não tomaram um terceiro porque concordaram, entre risadas meio compungidas, que talvez fosse um pouco demais para os corações.

Despediram-se com um abraço longo. Cheio de memórias.

Ele pegou o carrinho e começou a andar em direção ao estacionamento. Mas de repente voltou. Sem dizer nada, pegou na mão da antiga namorada e assim ficaram durante uns instantes, apenas se olhando, sem dizer nada – não havia necessidade.

E então despediram-se com novo abraço longo. Cheio de promessas.


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