PRIMEIRA PÁSCOA

Os dois andam pela casa e, pelos corredores, há uma espécie de silêncio novo e incômodo, mais adivinhado que percebido. Olham os quartos, a sala, a cozinha, a TV sempre ligada, o gramado onde já repousam os primeiros brilhos do sereno, o cachorro que parece um pouco mais triste em suas brincadeiras, a porta que era um entra e sai constante e que agora está lá, apenas porta.

Tomam o café da manhã bem cedo, nesta casa que de repente é tão grande, e ambos tentam sorrir por nada, carinho um com o outro, como se tudo ainda fosse igual. Falam de amenidades, do quanto são bonitos os dias à esta altura do ano, do passeio que provavelmente vão dar neste domingo sem compromisso, das notícias do jornal.

Mas o silêncio entre as palavras.

Quando saem da mesa do café, vão cada um para o seu canto. Já volto, diz ele; já volto, diz ela.

Logo voltam à cozinha e, como se fosse surpresa, entregam um ao outro os presentes da Páscoa. Ela lhe dá um livro e uma caixa de Ferrero Rocher; ele lhe dá um par de brincos e uma caixa de Ferrero Rocher. Os dois riem da coincidência, talvez estivessem no mercado na mesma hora.

Mas é então (depois de rirem este tanto dos bombons) que ela começa a chorar. E ele começa logo após. É um choro miúdo, libertador, emocionado e saudoso, que eles sabiam que teria mesmo que vir.

Porque é a primeira Páscoa que passam sem os filhos. O moleque casado e morando em outro Estado, carreira recém começando. A filha na faculdade, longe, não conseguira vir. A casa enorme.

Que saudade, diz ela, lembrando dos ninhos escondidos, da ansiedade das crianças, dos ovos coloridos, do marzipã comprado na vizinha duas casas adiante, das pegadas do coelho no pátio, feitas a dedo e farinha. E carinho, diz ele. E carinho, concorda ela.

“É da vida, é assim. Daqui a um tempo, chegam os netos, e aí a casa vai ficar cheia de novo.” – o marido brinca.

Ela sorri, precisa começar a se enxergar como avó. Daqui a uns anos, sim, a casa vai estar novamente cheia, o alarido das novas crianças, os ninhos dentro do armário ou embaixo da cama, a trilha farinhenta das patas do coelho, as risadas altas e claras.

É da vida, ela concorda. E sorri.

Mas hoje, ai, os quartos da filha e do filho são dois ninhos vazios.


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