A VISITA DAS SETE MENINAS

Há aqueles dias em que a pessoa se sente mais velha do que realmente é. Não é algo físico (talvez seja, um pouco), mas de espírito: aqueles tempos melancólicos em que a pessoa coloca em xeque um monte de coisas e fica se perguntando se os caminhos que escolheu são mesmo os corretos.

Naquele dia, pensando nisso, o escritor se sentia com vinte anos a mais.

Pensava nas escolhas que havia tomado, nas apostas literárias que tinha feito e perdido, nos preços que havia pago, nos lançamentos sem público e nos livros sem venda, no silêncio dos jornais, nas incontáveis palestras gratuitas. Pensava nos resultados tão pequenos depois de tanto, tanto esforço. Pensava que poderia ser mais reconhecido por seus escritos, ter mais leitores – a vaidade humana, esta fútil moradora de todos os corações!

Vinte anos a mais, ele tinha.

Era nisso que pensava quando a campainha tocou.

Atendeu e eram sete meninas, todas lá pelos treze, quatorze anos. Sete meninas e um riso só, alarido bom! Enfrentavam com risadas a vergonha de estarem ali, uma cutucando a outra para que alguma delas, enfim, tomasse coragem para falar.

Eram alunas de uma escola próxima e sabiam que o escritor morava ali. Tinham lido alguns textos dele em sala de aula e haviam gostado. Nem todos – completaram, sempre rindo. E aí, tinham resolvido fazer algo com algum dos textos – uma peça de teatro, encenação, um vídeo.

“Quem sabe até um curta metragem?” – comentou uma delas – “Sonhar nunca é demais...”

“E a gente queria pedir a sua autorização. E umas dicas.” – adendou outra.

Ele respondeu que sim, sorrindo. Depois, lembrando-se das regras da boa educação, convidou-as para entrar. Elas se olharam um pouco, indecisas, mas logo acharam que não haveria perigo – era só um escritor e, ainda por cima, velho! E foram para a sala da casa, conversar. Acomodaram-se onde dava, duas sentaram no chão. Tomaram suco de uva e deram risada, muita risada – ele falando e ouvindo, encantado com toda aquela juventude. Querem trabalhar meus textos, ele pensava. As garotas faziam perguntas, comentários, planos, sonhos – ele sonhava junto, revigorado. Tão simples, pensou, tão simples.

Até que uma delas deu-se conta de que já estava tarde. Num repente, sempre entre risos, elas se despediram e foram embora.

E quando as sete meninas saíram, o escritor se sentia com vinte anos a menos.


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