O TALENTO DE ELÍSIO

Elísio não é homem de muitos talentos, e seus dias cinzas e burocráticos não tem mesmo muito o que contar.

Mas há tempos vem desenvolvendo algo que, em seu entender feliz, o torna um pouco diferente dos demais: o talento para sonhar bem.

Começou com uma paixão não correspondida – a colega do escritório, mulher dos seus sonhos, não lhe dava a menor pelota. Mas, pensou Elísio, se ela era a mulher dos seus sonhos, por que não colocá-la mesmo neles? Desejou ardentemente sonhar com a colega – e aconteceu. No sonho, ela apenas aparecia com alguma brevidade e poucos sorrisos, mas Elísio se entusiasmou com o acerto. No dia seguinte, ousou um pouco mais: desejou que ela lhe desse um beijo. Na noite seguinte, em meio a um sono de pijama novo, o beijo aconteceu – a moça do escritório, ainda mais linda que na vida real, surgiu do nada e beijou-o com intensidade tanta que Elísio acordou quase sem ar. E assim mais e mais, avançando em todas as noites e todos os sonhos.

Então Elísio achou que isso poderia ser para tudo.

Desde então, arquiteta suas noites com antecedência, sempre decidido a sonhar bem. Escolhe situações, lugares, companhias – nem sempre será a colega do escritório. E assim, caminha pelas areias encantadas das praias que nunca conheceu, escolhe livros e discos em lojinhas e ruelas parisienses, janta nos restaurantes mais esquisitos (às vezes sozinho, às vezes acompanhado), o time ao qual está condenado a torcer vence vinte campeonatos seguidos, assiste shows em todos os teatros, reencontra pessoas que já se foram, ama as mulheres mais lindas e inalcançáveis.

As noites de Elísio são sempre uma festa. Ele passa o dia inteiro se preparando para elas.

Enquanto isso, a moça do escritório começou a namorar o novo estagiário.


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