O FILHO

Maria Helena dobra o blusão amarelo do filho com o mesmo desvelo com que o fazia quando o moleque tinha quatro anos e as roupas eram o retrato meio bagunçado de sua alegria. Relembra a ventania feliz, as corridas do pequeno pela casa, e não sabe se chora ou ri – e então chora e ri, porque é mesmo o que pode e deve fazer. Ri pelo tanto que lembra; chora pelo tanto que sente. E chora tantas lágrimas que nem mais imaginava ter.

É sempre assim, quando se põe a arrumar as coisas do filho – sempre criança, sempre alguém a precisar cuidado.

Sempre.

Mas enquanto dobra o blusão – e em todos os outros tempos –, sabe que suas horas duram mil dias. Ela anda pela casa numa solidão toda feita de tristeza, como se não existissem caminhos.

No quarto do filho (todos os dias) abre as janelas e alisa as cobertas da cama intocada, ajeita sobre elas os travesseiros insones, sentindo no ventre o sopro frio da ausência. Olha a foto outra vez, como se fosse a primeira – e, ainda agora, não entende.

Escuta um barulho qualquer e seu coração é sobressalto impossível.

Não é apenas saudade – é mais.

Fecha os olhos e ali está o filho.

Abre os olhos e ali está o filho.

Levanta da cama e ali está o filho.

Vai dormir e ali está o filho.

Estica o braço, coça a perna, assiste televisão, dá um telefonema, mastiga um pedaço de maçã, vai ao dentista, dobra o blusão amarelo – em tudo: ali está o filho.

Faz tudo por causa disso: o filho ainda está.


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