RESPEITÁVEL PÚBLICO

E nesta noite o circo saúda a todos os presentes, homens, mulheres, crianças, felizes em suas roupas domingueiras, chegando e se acomodando nas arquibancadas e numas cadeiras de palhinha cujos pés se afundam na areia úmida e que, circundadas por uma cerquinha de ripas amarelas, recebem o pomposo nome de camarote e nos quais se acomodam, superiores, os comerciantes, os funcionários, os patrocinadores, homens, mulheres, crianças, a comerem seus salgados e doces, cachorros quentes e pipocas misturados com guaraná e coca-cola, enquanto ainda não se inicia aquilo que um cartaz gasto e pregado à entrada define em letras escarlates como o Maior Espetáculo da Terra, homens, mulheres, crianças, coloridos sob a lona colorida, a serragem levantada por seus passos, apurando os ouvidos para tentar escutar qualquer barulho nos bastidores que sua imaginação multiplique, o grito da mulher-macaco ou o ronco das motos do globo da morte, o rufar nervoso dos tambores, homens, mulheres, crianças, sem saber muito como se comportar, dando risadas e batendo palmas, assoviando para agradecer esta brevidade alegre em suas vidas, homens, mulheres, crianças a comentarem entre si suas preferências, as mulheres suspirando à coragem dos trapezistas e os homens abrindo seus votos à parceira do atirador de facas, que enfrenta a morte todas as noites com um sorriso no rosto e ainda encontra forças para vender maçã do amor quando não está se apresentando, as crianças indecisas ente as feras e os palhaços, as primeiras porque assustam com seus rugidos tristes e os outros porque as libertam do susto, homens, mulheres, crianças olhando todos os movimentos e luzes e cores, homens, mulheres, crianças, a espiarem os relógios e se perguntarem porque não começa logo este espetáculo, desejando que se apaguem as luzes e se acendam em todos e todas algumas magias inexplicáveis, homens, mulheres, crianças, todo o mundo criança.

Outros Contos


AQUI TEM –

QUANDO VOCÊ ME DEIXOU, MEU BEM

O DISCURSO

ESTE ANO

LIXO

A CELA

NICOLAU

OS CINCO HOMENS VELHOS

NESTA ÉPOCA

O CASAL

ONDE ANDARÁ ESTE FUTURO?

PROGRAMA DE BEM ESTAR

PARA QUE SERVEM OS LIVROS?

A GENTE DANÇA

OS ANÉIS

A FESTA DE NÃO MORRER

AS OPÇÕES

A VIDA É UM POÇO ATRÁS DO OUTRO DE INJUSTIÇAS

AQUELE MENINO SÍRIO

ELE NÃO SABE

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais