LIBERDADE DE OPRESSÃO

O Trouxa acredita que os gays estão tendo direitos demais, que os veados saíram do armário e começaram a invadir as ruas, que existe por aí uma ditadura homossexual, que isso tudo é uma pouca vergonha e que daqui a pouco, do jeito que a coisa anda, será quase proibido ser heterossexual. (Não consegue enxergar que nenhum direito está sendo retirado.) Também acha que dois homens ou mulheres andando de mãos dadas na rua estão pedido para apanhar. Mas ele não está sozinho.
O Babaca acha que as mulheres também andam saidinhas demais, desde que saíram do forno e fogão, desembestaram a queimar sutiãs em praça pública, a querer as mesmas condições de trabalho e os mesmos salários que os homens. Que mulher dirige mal e que, quando reclama, é por falta de homem. E as roupas das mulheres, então? O Babaca considera que a mulher que use um vestidinho muito curto tem mais é que ser agarrada mesmo, afinal ela está pedindo para ser estuprada (ele diz estrupada). Mas ele não está sozinho.
O Bocó tem certeza que os índios que vendem seus artefatos nas esquinas gastam todo o dinheiro que ganham em cachaça, mesmo os pequeninos, e que, se ficam sentados na calçada tecendo seus colares e miçangas, é porque são um bando de preguiçosos, que não querem nada com o trabalho. Mas ele não está sozinho.
O Ignorante chama de turcos aos sírios, aos libaneses, aos árabes, aos líbios, aos palestinos, e acha que todos eles – todos! – são terroristas, prontos a explodirem bombas em qualquer lugar que estejam. Acha quer todo muçulmano é um Bin Laden e fica receoso se algum barbudo moreno entra com ele no elevador, pensa que o edifício pode explodir daqui a instantes. Mas ele não está sozinho.
O Calhorda considera que os negros são os piores racistas, que a primeira coisa que estes fazem quando sobem na vida é querer namorar uma loira, até comendo em bons restaurantes já andam, parece que não sabem mais o seu lugar e que a macacada deveria mais é voltar para a selva, onde já viu? Também acha que está mais do que na hora de existir o Dia do Branco (esquecido que estes são os trezentos e sessenta e cinco dias do ano). Mas ele não está sozinho.
Porque andam juntos, em bandos.
Assim se sentem fortes e espalham seus ódios e preconceitos criminosos como se isso fosse liberdade de expressão.


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ELAS

O MAR AO LONGE

BAILE DE DOMINGO

DIA DOS NAMORADOS

AUTO DE INFRAÇÃO

A BANDALHEIRA

POR ONDE ANDARÁ A INFÂNCIA?

A VIDA É UM POÇO ATRÁS DO OUTRO DE INJUSTIÇAS

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A SUPER LUA

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O FIM DO MUNDO

PROCURANDO GILSON

O CAVALEIRO E SEU CAVALO

O IPÊ

 

 

 
 

 


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