ESTÁTUAS VIVAS

A estátua viva, engalanada em suas vestes brancas de pitonisa grega, enfeitava com sua imobilidade a movimentada manhã dominical da Redenção. O colorido e o burburinho, as crianças a tocar-lhe as roupas para saber se eram de verdade, os raros latidos dos cães menos inteligentes, nada conseguia romper-lhe a atenção que, brilho claro e alvaiade no rosto, reservava à personagem. À frente do banquinho no qual se equilibrava há horas, um pote no qual os freqüentadores do brique depositavam alguns trocados. Apenas de quando em vez, porque até às estátuas deve ser dado o privilégio do movimento, ela trocava de posição, sem alterar a expressão vaga e distante do olhar e sem sorrir: sorrisse, e o dente faltante lhe destruiria a altivez de pitonisa e terminaria sem dinheiro o seu domingo.

Lá pelas duas da tarde, cansado de espingardear entre as banquinhas de antiguidades e artesanato nos quais mexera em tudo o quanto coubesse em suas mãos, o menino de rua descobriu a estátua. Coçou sem pudor os calçõezinhos rotos de caridade e mostrou a língua à personagem, disposto a arrancar-lhe algum sorriso, mas não: o outro seguia incólume à sua frente e parecia olha-lo como se não estivesse ali. O garoto, então, tentou uma palhaçada – mas foi como se não houvesse feito nada. Resolveu, por fim, fazer o que gostaria de ter feito desde o início: postou-se na exata posição em que se encontrava a estátua, mãos e pés procurando os ângulos até que o encontrassem, e assim ficou. Naquela hora, pareceu perceber que os olhos da estátua lhe devolviam um brilho de admiração e agradecimento, e este olhar aquentou-lhe o coração sem casa. E então – porque talvez fosse, naquele dia, a primeira vez que alguém lhe prestava alguma atenção, resolveu ficar, decidido a ser mais estátua que a própria estátua.

Mas a alva pitonisa – que também crescera sua dureza pelas noites e dias das ruas -, naquele instante, decidiu que um menino iniciante não poderia ser mais estátua do que ela. Respirou fundo, num movimento cênico – ele também respirou fundo -, e ambos pareceram ter resolvido ao mesmo tempo e numa espécie de bem humorado desafio mudo, que não sairiam de seu lugar enquanto o outro não se mexesse, ninguém a esperá-los em suas solidões.

Há dois domingos estão lá, imóveis, pobres espelhos sem destino, e o vento de outono já levou as notas mirradas que repousavam, raras, no potinho. Mas não se mexem por nada, dispostos a não perderem aquele duelo de talentos sobreviventes, e a verdade é que, hoje, ninguém mais sabe se ambos ainda são gente ou se já viraram pedra.


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