AQUELE SILÊNCIO

Abro a porta e percebo em minha casa certo silêncio incomum, novo e desconhecido, e que me faz parar por um instante. Parece algo em suspenso, que não se explica. Meu gato não vem me receber, ele que às vezes parece mais um cachorro, de tanto que se enrosca em minhas pernas – mas não é problema, deve estar acomodado em alguma cama ou sofá, muito mais confortável do que receber o dono.

Entro em casa e acendo a luz da sala, para que este ar inexplicável se dissipe, e vejo que o gato não está dormindo no sofá ou no tapete da sala. Estará na cama, Milena deve ter deixado a porta do quarto aberta. Aperto o botão e ligo o aparelho de CD, e então percebo que o disco do Tom Jobim que havíamos colocado lá já não está. Apanho na pilha ao lado um CD do Fito Paez, apenas para vestir de algum barulho aquele silêncio espesso e diferente, e os sons de Mariposa Tecnicolor então tem o poder de me distrair um pouco. Milena provavelmente guardou o CD do Tom Jobim. Ela adora aquelas músicas, mas deve estar cansada de escutá-las.

Aliás, Milena já deveria ter voltado do trabalho. Geralmente chega em casa antes de mim. Telefono para ela, mas a ligação cai na caixa de mensagens. Não vou deixar mensagem para minha mulher, que daqui a pouco deve estar chegando.

Vou ao toalete, ergo a tampa do vaso (Milena detesta os respingos que às vezes, distraidamente, deixo) e faço xixi. Não que tenha vontade; é mais pelo hábito. Todos os dias, faço xixi tão logo chego em casa, mesmo nestes dias em que – ainda sinto – alguma coisa estranha parece pronta a acontecer. Limpo as mãos e minha toalha está sozinha – Milena deve ter colocado a dela para lavar.

Entro no quarto, para descalçar os sapatos e voltar mais confortável para a sala, e logo percebo que a cama está arrumada, impecável. Não há sinal do gato.

Mas, sobre o meu travesseiro, há um bilhete em que reconheço a letra de Milena.

E então todo aquele silêncio se explica.


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