A VIDA É UM POÇO ATRÁS DO OUTRO DE INJUSTIÇAS

Eram três da manhã e, no boteco, só estavam eles. A mesa já andava lá pela décima-primeira rodada de chope, e dividia os assuntos entre piadas que ninguém mais entendia direito (mas não deixava de rir), as possibilidades pequenas de salvação do mundo e a rodada do próximo domingo. Foi quando o Bebeto – meio que do nada – comentou:

“É, a vida é um poço atrás do outro de injustiças...”

Uau! Mesmo bêbada, a mesa pareceu entender a profundidade tamanha do comentário. Houve certo silêncio respeitoso, e o Egídio até parou de rir de uma piada que recém havia entendido. Ninguém disse nada por uns instantes e, quando voltaram ao papo, a frase do Bebeto seguia marcada em todos eles. Afinal, a vida é um poço atrás do outro de injustiças.

No dia seguinte, ainda de ressaca, alguém comentou com outra pessoa o que o Bebeto havia dito. O outro também se impressionou: o fato é que o Bebeto, de poucas palavras e até um pouco simplório – meio toscão, para dizer a verdade - , não parecia ser dos mais inteligentes da turma. Mas não, vaticinou o amigo: talvez todo aquele silêncio fosse uma espécie de sábia profundidade.

Desde então, o prestígio do Bebeto com a turma aumentou uma enormidade. Mais do que isso:a fama se estendeu um pouco além, e há mais amigos e amigas que hoje consideram aquele silêncio opaco como uma demonstração de humilde sabedoria e conhecimento. A cada rodada de chope, a cada conversa de bar, cada encontro dos amigos, os comentários do Bebeto (sempre na linha do ´pois é...”, “é isso aí”, “é assim mesmo”) são recebidos com a admiração que o filósofo da turma merece.

Sobre a frase (talvez melhor deixá-la assim, pulsante), ninguém mais falou.

Nem mesmo o Bebeto – que, na verdade, estava tão bêbado que não lembra de tê-la dito.

E, se lembrasse, não saberia bem como explicá-la.


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