O CASACO DE LISTRAS AZUIS

Era a década de setenta, e o Pintor, no meio do azáfama colorido em que estava a sua vida, decidiu que iria fazer o retrato do Amigo.
E porque o Amigo era especial, também especial deveria ser o retrato.
Carregados que eram de compromissos, conseguiram ajustar alguns horários, sem pressa e com o cuidado carinhoso que, para ambos, o desenho mereceria. Os filhos do Amigo, crianças curiosas, acompanhavam a figura do pai que, pouco a pouco, caprichosamente, ia aparecendo no papelão que, noite após noite, dormia no tripé improvisado da sala.
E então, depois de certo tempo, o retrato ficou pronto.
Se, como Michelangelo ao seu Moisés, o Pintor ordenasse `parla!”, a obra falaria, tamanha a sua pequena perfeição. Os cabelos parados no desenho pareciam voar, o sorriso tinha certa ironia misteriosa e o olhar maroto, um pouco enviesado, dava conta de que o Amigo se divertia enquanto era retratado.
E o casaco de listras azuis! Ah, quem comparasse de perto o casaco verdadeiro com o seu desenho não conseguiria enxergar diferença entre um e outro. Como o Pintor entregou ao traço a cor e a trama do tecido é coisa que olhos comuns nem entendem. Mas que lindo, que lindo.
Um dos retratos mais bonitos que o Pintor fizera.
(Depois de um tempo, a vida e as correrias afastaram um pouco o Pintor e o Amigo. Seguiram ambos ganhando o mundo, a vida. O Pintor, dividido entre duas casas. E o Amigo, supersticioso que era, deixou de usar azul depois que duas ou três coisas meio ruins lhe aconteceram quando vestia esta cor. )

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Tantos anos depois, o retrato ainda está lá, vivo, na parede.
E, tantos anos depois, o Pintor e o Amigo (meu pai) também estão lá, vivos, no retrato.


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