AMANHÃ TALVEZ

É uma senhora, já bem entrada em anos, mas tenta se vestir como menina. O resultado é docemente trágico: a saia curta e colorida deixa à mostra umas perninhas finas e descarnadas, o batom vermelho adolescente acentua o vinco dos lábios antigos, o sorriso triste lhe ressalta ainda mais a solidão.

Está sentada à mesa do café. Pediu o segundo capuccino e, olhar ansioso, mira a porta a cada pessoa que entra – mas nunca.

“Que horas são?” – ela pergunta à menina do caixa.

“Cinco e trinta e cinco, moça.”

O ´moça” lhe causa uma espécie de bem momentâneo, a contrastar com o desassossego que, desajeitadamente, tenta disfarçar. Se fosse permitido, tiraria da bolsinha a piteira e fumaria um cigarro, apenas para acalmar as batidas descompassadas em seu peito magro. Mas não pode; então sorve o seu café em goles pequenos, de pouca vontade.

Um casal entra abraçado, o homem ri a um comentário da parceira. Depois do sobressalto e da decepção, a senhora os olha com certa inveja: a risada clara e apaixonada do homem é quase ofensiva, alheia à angústia que pode estar acontecendo nas mesas ao redor.

“Que horas são, moça?” – ela repete a pergunta.

“Quinze para as seis, senhora.”

Senhora, disse a moça do caixa.

Ele havia marcado o encontro para as cinco da tarde. Dissera como estaria vestido, para que mais facilmente se identificassem – mas até agora, não apareceu no café nenhum homem alto, de blusão verde e óculos, carregando um livro nas mãos.

Ela decide que esperará até as seis, talvez seis e meia. Ele certamente chegará daqui a pouco, esbaforido, desculpas compreensíveis pelo atraso (afinal, era ele quem havia proposto o encontro, era ele quem dizia que estava ansioso por conhecê-la).

Mas, se não vier, certamente será por alguma razão maior, um problema grande, empecilho de última hora. E então fará novo contato, para que finalmente se encontrem.

Tomara, pensa ela.


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