A ETERNIDADE DURA MUITO

Foi em 1315, quando ainda era um mago iniciante e obscuro, que Willfried Gottlieb descobriu a fórmula da vida eterna. Misturou num caldeirão alguns ramos de rosmaninho, ervas verdes malcheirosas, sangue de pássaros em vôo, um pó de pedras brilhosas que ele nunca soube serem diamantes, o sal e a água de mares e rios, as vísceras ainda vivas de um peixe recém pescado, flores colhidas nas tumbas de cemitérios, um líquido viscoso e branco cuja origem manteve sempre em segredo e – mais importante – um pedaço de alma, que a muito custo havia capturado. Macerou a mistura com a pedra de uma lápide e ferveu-a durante dez dias, renovando as águas sempre que necessário. Quando tudo era uma apenas uma baba ácida na qual já não se percebia nenhum dos ingredientes, bebeu-a e, no mesmo instante, soube que havia se tornado imortal.

Não revelou a ninguém o seu segredo; melhor este poder sobre todos os outros do que os dinheiros e honrarias que por certo lhe prestariam se dividisse a vida eterna com o mundo.

Nestes séculos de vida que se estenderão ainda para sempre, Gottlieb viu seus filhos morrerem uma dezena de vezes e as mulheres que amou foram lhe deixando buracos de tristeza em seu manto de imortalidade. Os amigos e os inimigos se estenderam além do possível e hoje, quando olha para trás com seus olhos centenários, já não consegue enxergar nada. Conheceu todos os prazeres e excessos, esteve com todas as cores e raças e descobriu que o homem é o mesmo em todos os tempos e lugares. Viu o sol nascer mais do que qualquer outro e contou todas as estrelas das noites escuras, apenas para passar o tempo, desde quando a lua era o mito invencível aos que viviam nesta Terra plana até quando passou à história dos solos pisados por pés humanos. Desafiou tiranias e enalteceu outras tantas, creu em todas as religiões e desacreditou das mesmas. Enfrentou febres e pestes sofrendo as mortes dos seus próximos e engajou-se nas linhas de frente das guerras que o chamavam, peito aberto a lanças e balas, enfrentando cavalos e aviões com o estranhamento que lhe causava o seu sangue sempre novo. Quando foi ferido, não foi.

Mas o cansaço que se assoma em sete séculos de vida é inagüentável até para os imortais. E é ainda mais aterrador este cansaço porque Gottlieb sabe que nunca terá fim – quantos filhos ainda a prantear as mortes, quantas saudades a substituir amores, quantos amigos deixando para sempre a última conversa, quantos tremores atravessando este corpo velho que não pode morrer?

Por isso, há mais de cem anos vem tentando descobrir outra fórmula, sem conseguir. Quer encontrar um antídoto a esta vida eterna cujo fogo teima em queimar-lhe o sangue e da qual o cansaço invencível de seus dias quer libertar-se. Pesquisa e prova todas as poções mas só o que consegue são tonturas e dores de barriga que lhe atormentam os dias velhos. Seu corpo pede descanso e ele enlouquece de impotência, porque não consegue libertar-se deste castigo eterno que se impôs. Só quer morrer – e não pode.


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