ANDANDO NA CHUVA

O dia havia sido ruim, cheio de reuniões pesadas, e Armando tentava esquecer um pouco da tensão enquanto caminhava para casa – morava perto do trabalho -, quando a chuva começou, repentina e forte. “Caraca”, pensou ele, “só faltava essa!”

Estava sem guarda-chuva e percebeu logo que não adiantaria correr, seu fôlego de meia-idade já não agüentava uma pernada de quatro quadras. Andar por baixo das marquises também não resolveria nada – não há marquises suficientes nestas quadras que ainda o separam de casa.

O que fazer? Molhar-se, então.

Correndo ou andando, ia se encharcar – preferiu ir andando. Tirou os sapatos e as meias e colocou-os dentro da mochila que, à guisa de pasta, carregava para lá e para cá todos os dias (lembrar de colocar um guarda-chuva nesta mochila, pensou Armando) e começou a caminhar.

Sentiu os pingos gelados caindo sobre o seu corpo, empapando seus cabelos meio ralos e molhando o terno cinza com que havia, a seco, atravessado o dia – e se deu conta, quase com surpresa, que aquilo não o incomodava. Mais que isso: estava gostando daquela água.

E então lembrou-se das maravilhas da infância, dos banhos de chuva com a molecada, e resolveu transformar em festa o caminho que ainda lhe restava. Os outros que por ele cruzavam, sérios e protegidos em suas capas e sombrinhas, não sabiam se riam ou se espantavam com aquele homem de terno e mochila pulando nas poças d´água e dando gargalhadas como se estivesse sozinho. Mas ele, ah, ele não estava nem aí para os outros: apenas se divertia em sua brincadeira, criança novamente por uns instantes. Coisa boa, pensava.

Quando chegou em casa, a mulher se assustou – com seu estado encharcado e sua alegria. Mandou-o tomar logo um banho quente e disse que ia preparar-lhe um chá de mel e limão para prevenir a gripe. Ele pediu a ela que colocasse também um pouquinho de cachaça. Depois, foi ao banho, cordato.

Mas, enquanto se ensaboava sob a água quente do chuveiro, sentia saudades daquela água gelada da chuva.


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