A FAMÍLIA

Há mais de vinte anos estão juntas, Gisa e Berna, dividindo a casa e a vida. Berna é professora, mesma profissão da vizinha do apartamento ao lado, a Dora, que é casada com um veterinário. Gisa é gerente de uma loja de sapatos, e seguidamente compra produtos do rapaz que mora no 314 e é representante comercial. Berna e Gisa adoram jogar vôlei, organizaram os times que disputam partidas tão animadas quanto pobres em técnica, todos os sábados à tarde, na quadrinha meio furreca do condomínio. Semana passada, fizeram um torneio com quatro equipes mistas, foi uma festa só e o time da Gisa acabou sendo o campeão, medalhinha no peito e tudo, brincadeira que se estendeu até o cachorro quente com cerveja e refrigerante que quase toda a vizinhança organizou. Um casal não quis participar, não gostam que aquelas duas organizem as coisas. Então azar, ficaram de fora da diversão. O apartamento de Berna e Gisa é uma jóia, financiaram em quinze anos e, dia cinco de todo o santo mês, cada uma paga a metade da prestação – o dinheiro já fica reservado, nunca atrasaram o pagamento. É pequenino o apartamento, dois quartos, sala, cozinha, banheiro e área de serviço, e elas foram decorando aos poucos, sem pressa e com gosto, montando a obra de arte e carinho em que passam juntas a maioria de seus dias. Um presente de um amigo aqui, outro ali, na parede umas paisagens bucólicas pintadas pela irmã de Gisa, na cristaleira a foto delas com pais e mães de ambas, um monte de gente e um sorriso só. À falta de filhos, elas adotaram um cachorrinho, um viralatinha meio caolho e manchado a quem deram o nome de Pirata, e que, já há uns cinco, seis anos, é o dengo de ambas: chegam em casa e o bichinho já está esperando, o rabo parecendo um helicóptero, pronto para o passeio e o xixi nas árvores da calçada. No mês passado, o Pirata deu um susto: sabe-se lá como, pegou uma infecção e andou bem mal das perninhas. Mas tudo resolvido a contento, elas correram ao vizinho veterinário e ele logo receitou o que precisava, depois nem queria cobrar a consulta. Amigo é para essas coisas, disse ele. Que esperança, comentou Berna, enquanto pagava a consulta sob os protestos dele. Depois, como uma espécie de agradecimento, Gisa fez um bolinho de chocolate e foram, elas e o Pirata (ele, meio contra à vontade), entregar o doce no apartamento ao lado. Acabaram jantando no apartamento deles, tomando um vinho e dando umas boas risadas. Mas tudo sem muito alarde – afinal, a Berna é síndica do prédio e não fica bem ficar fazendo barulho no horário de silêncio.

Há mais de vinte anos, Gisa e Berna. Todos os dias, todas as horas – juntas.

Agora há dias, receberam a notícia de que, legalmente, não podem ser uma família.

Mas elas são.


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