A CHUVA SEMPRE

Chove sobre Macondo.

Úrsula está sentada na varanda úmida de sua casa e sabe que, por onde e para onde se olhe, já não há lugares secos. O teto pinga em goteiras, o assoalho escorre em umidade, quase não há mais roupas a vestir, as panelas acampadas pelo chão recolhem a água em sua música cansada. Úrsula também está cansada – há quanto tempo, esta chuva?

Chove sobre Macondo, chove muito.

Ela tenta enxergar o céu, mas ele é apenas uma massa cinzenta de nuvens pesadas, encharcadas, e quase já não se sabe se é noite ou dia. Mas tanto faz, ela pensa – dia ou noite, é tanta a água que quase não há diferença. As ruas barrentas são rios que invadem os pátios e as casas, os móveis e as vidas.

A chuva sobre Macondo.

Mas ela se dá por feliz, pensa. Úrsula tem a sorte clara do teto sobre seu corpo, e seu corpo antigo ainda se aquece na tessitura da lã. No fogão, as panelas que não estão a recolher água esquentam feijão, cozinham arroz. E o problema da goteira sobre a cama foi fácil de resolver: a cama puxada um pouco para o lado, o vasilhame com um pano embaixo dos pingos, e pronto. No meio de toda esta chuva, a cama seca de Úrsula.

Porque chove, chove sobre Macondo.

O que a atormenta é a dor destes que estão sem teto, sem casa, sem roupas, sem comida. Espécie de dor que olha para o céu e não tem nada a fazer. O sofrimento dos que enxergam a vida escorrer com o rio, dos que vêem tudo o que construíram indo embora com as águas, castelos desmoronando em barro. A dor que Úrsula verdadeiramente sente não é a dela; a dor que sente, agora, é a dos outros.

O que será destas pessoas? E quando acabará esta dor?

Chove sobre Macondo, o tempo inteiro. Parecem cem anos de chuva.


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