UM MENDIGO PARADO NO MEIO DA CALÇADA

Um mendigo parado no meio da calçada.

A dona de casa para de varrer as lajes defronte à garagem, tão logo enxerga a figura pobre do homem coçando a perna molambenta, e apressa-se a fechar o portão. Nem guarda a vassoura, porque depois irá terminar o serviço. Entra em casa e tranca a porta, porque assim sente-se mais segura, e é detrás da cortina que alimenta o seu medo, enquanto espreita o homem que ainda se coça, tranquilamente.

Um mendigo. Mendigo parado no meio da calçada.

A garotada que volta agora da escola interrompe a álacre alegria da infância, na hora em que enxergam o homem coçando as pernas uns metros à frente. O garoto mais alto ensaia uma risada, como se estivesse pronto a se divertir com o que vê, mas os outros não o acompanham; dois ou três nem tentam disfarçar a expressão de nojo que lhes causam as chagas do desconhecido e o imundo saco de farinha em que ele deve carregar suas preciosidades podres. Depois, sem que precisem combinar, resolvem atravessar a rua e seguir o caminho pelo outro lado.

É um mendigo.

A moça carrega suas sacolas de compras com tanta atenção que só percebe o homem quando já não pode mais desviar o caminho. Apressa o passo, apenas para atravessar mais rapidamente o estorvo, sem perceber que tranca momentaneamente a respiração e agarra com mais força junto ao corpo a bolsa que leva a tiracolo.

Porque é um mendigo.

O dono da loja de roupas posta-se acintosamente na porta de entrada do seu comércio, corpanzil protegendo o patrimônio daquela ameaça sem nome, e olha com um desdém quase raivoso o homem que se coça como se nada mais no mundo existisse. Se este vagabundo ficar parado em frente à minha vitrine, pensa o dono da loja, mando ele passar logo. Não quero fedor na minha calçada, decide, certo de que a rua lhe pertence.

Um mendigo parado na calçada.

A viatura da polícia estaciona quando seus ocupantes veem o homem coçando a perna, saco de farinha largado ao chão. No início, apenas o observam, sem dizer nada. Mas quando percebem que ele não lhes devolve qualquer olhar, dão a ordem que entendem necessária.

“Circulando, malandro, circulando!...”

Então o homem sai de suas feridas, levanta o olhar e pela primeira vez percebe os policiais na viatura, os alunos que voltam da escola, a moça, o homem de olhar feroz, a senhora que espreita por trás da cortina. Nem sabia deles, preocupado que estava (está) com estas chagas que não curam.

Porque, afinal, é só um mendigo parado no meio da calçada.


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