O HAITI NÃO É AQUI

Então o chamaram de ´negro safado”, de “haitiano vagabundo” e correram para cima dele. Não importava que fosse senegalês, ganês, angolano ou viesse da Costa do Marfim, não: para eles, naquele momento, todo ele se resumia à condição de haitiano. E de negro. E de safado. E de vagabundo.



E também pouco importava que na casa dele pudesse haver alguém a esperá-lo, que ele tivesse pai e mãe, avós, que talvez às vezes jogasse bola com o irmão mais novo. Não, nem pensaram nisso, claro que não – estes haitianos não podem ter família. Afinal, eles vêm do nada, não são nada – podem ter pensado.



E não olharam (porque nem quiseram dar tempo a isso) a sua carteira de trabalho assinada, porque tanto fazia. Na verdade, para eles a carteira até podia ser a prova do crime do negro safado: estava ali, ocupando um lugar que não era o seu, que não podia ser. E também pouco importava que no posto de gasolina em que trabalhasse ainda houvesse vaga para outro frentista. Uma das vagas estava com aquele haitiano vagabundo.



E também não importava que o haitiano ou senegalês ou angolano gritasse que eram nove ou dez contra um e mais adiante lhes pedisse que parassem com os golpes, que implorasse por misericórdia, porque não faria diferença: quem poderia se importar com aqueles negros safados, e com os mendigos, com os índios, os Galdinos dos bancos de praça, fosse em Brasília, Florianópolis ou Santa Maria? Um a mais, um a menos – o mundo não notaria a diferença. Ninguém se importaria.



Quem se importa?



Apenas a viúva, chorando seu desespero inútil ao lado do corpo sem vida do marido. E os filhos pequenos que de repente não tem mais pai. E talvez os pais dele, no Haiti ou no Senegal ou em Moçambique.



Mas e com eles, quem se importa?


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